Os cafeicultores brasileiros ainda estão se perguntando o que foi que os atingiu. Há duas semanas os preços da saca do café de melhor bebida eram remuneradores, chegando a R$ 250 mesmo com a previsão de queda na produção deste ano. Foi então que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) resolveu divulgar a estimativa de safra e o resultado apresentado não poderia ter sido pior.
O anúncio da Conab apontou um aumento de 4,56% para esta safra enquanto todo o setor acreditava em quebra. A expectativa dos produtores, segundo o corretor Carlos Amaral, era colher não mais que 32 milhões de sacas (sc). ''Agora o segmento questiona se os parâmetros utilizados pela Conab foram os mesmos em todas as regiões produtoras'', declara.
O corretor Marco Aurélio Bacceti assinala que o levantamento fez com que o mercado despencasse mais de mil pontos num só dia, comprometendo o preço físico do grão. ''A perda ficou entre R$ 25 e R$ 30 por saca'', calcula. Os cafés de bebida dura passaram a ser comercializados a R$ 230/sc, enquanto os cafés menos qualificados estão sendo vendidos a R$ 170/sc.
Segundo Bacceti, o único setor que entendeu o crescimento da produção foi mesmo a Conab. No Paraná, por exemplo, o veranico ocorrido entre os meses de fevereiro e maio comprometeu a granação dos cafezais e adiantou em até 30 dias a colheita.
O coordenador do departamento de café do Mapa em Londrina, Francisco Barbosa Lima, explica que a média histórica de renda, que era de 20 quilos, também ficou comprometida. ''Os mesmos 40 quilos de café em coco agora estão produzindo menos de 18 quilos de café beneficiado'', assinala.
Para Lima, a queda nos preços está relacionada a uma combinação de fatores entre eles o aumento na oferta, a ausência do risco de geada, a expectativa de grande safra no próximo ano e os altos estoques de café dos países importadores (os maiores da história).
''Vivendo esta situação de baixa há pelo menos cinco anos, muitos cafeicultores desistiram da atividade no Paraná. Os dados apontam uma redução de 40 mil hectares em todo o Estado'', calcula. A geada de 2000 e o preços favoráveis da soja também contribuiram para a erradicação dos cafezais no Estado afirma Lima.
O corretor Nelson Laetano Filho acredita que o Brasil pode perder sua credibilidade no exterior depois deste episódio desastroso. ''Como ficamos perante a USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) se o órgão oficial brasileiro solta um levantamento e precisa revê-lo'', questiona.

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