Conceitos como biodiversidade e sustentabilidade estão cada vez mais próximos dos produtores, que vêem hoje as práticas conservacionistas como aliadas na busca de um bom desempenho econômico nas suas propriedades. A situação ainda não é generalizada, mas já existem bons exemplos de que é possível uma agricultura que preserve o meio ambiente.
O produtor Estefano Paranzini, do município de Cambé, vizinho de Londrina, comenta que a primeira lição que aprendeu ao discutir meio ambiente e a adoção do controle biológico de pragas foi economizar, ou melhor, racionalizar. ‘‘Diminuí a aplicação de defensivos e reduzi custo de produção.’’
A conscientização dos produtores desta região começou com a criação do Conselho de Desenvolvimento Rural, a partir de 97, que tem o objetivo de elaborar, coordenar e executar uma política rural para o município, e não apenas uma política agrícola. O agrônomo da Emater, Luis Artur Bernardes da Rosa explica que o desenvolvimento rural é um conceito muito mais amplo do que o desenvolvimento agrícola. ‘‘O conceito rural trabalha com o todo, tendo o homem como centro’’, diz Luís Artur.
O agricultor Estefano Paranzini está recuperando a margem do rio com plantio de frutíferas e silvestresIntegraçãoSegundo Luís Artur, o grande passo foi a consolidação e integração entre as instituições que atuam na agricultura e a classe produtora. ‘‘As ações preservacionistas já existiam, mas de forma isolada. e o Conselho Municipal reuniu esforços de todos para melhorar as condições na região.’’
Tudo começou com as primeiras discussões em 96, quando foram diagnosticadas as principais preocupações dos produtores: rendimento econômico e qualidade de vida. Neste trabalho estão envolvidas nove comunidades, englobando aproximadamente 600 propriedades onde vivem seis mil pessoas. ‘‘Nas primeiras reuniões os produtores levantaram questões problemáticas como estradas rurais, educação, saúde, e perceberam que tudo isso estava ligado ao meio ambiente, numa visão mais ampla’’, explica Luís Artur.
De lá para cá vários trabalhos foram iniciados, como a construção de um depósito para receber as embalagens de agrotóxicos, antes enterradas nas propriedades; a intensificação do uso de baculovirus no controle da lagarta-de-soja e vespinha no controle do percevejo; a construção de abastecedouros comunitários, evitando a contaminação dos rios; e o reflorestamento da matas ciliares em diversas propriedades.
O agrônomo Luis Artur da Rosa destaca que a consolidação do trabalho foi resultado da integração de açõesOs produtores estão mudando de comportamento, porque começaram a perceber que a degradação do meio ambiente influencia diretamente sua vida. ‘‘Um exemplo foi a discussão sobre a poluição de um rio do município, por esgoto urbano que destruiu os peixes, e como consequência aumentou a proliferação das moscas, que começaram a incomodar produtor dentro de sua casa’’, cita Luís Artur.
EducaçãoEstefano Parinzini administra a Fazenda Floresta, na Estrada da Prata, com 112 alqueires e pertencente à família. Cultiva soja, milho, trigo e aveia, e está inciando o reflorestamento da mata ciliar. ‘‘Aos poucos estou plantando árvores frutíferas e silvestres na beira do Ribeirão Grande’’, informa.
Na sua propriedade o ribeirão percorre 8 km e, pela lei, o produtor terá que deixar 30 metros da margem para preservação, reconstituindo a mata. ‘‘Esta área representa de 2% a 3% do total da minha área agricultável, mas estou empenhado em recuperá-la e preservar o rio. ‘‘Hoje, o plantio de trigo ainda chega até a margem do rio, mas logo esta prática fará parte do passado’’, explica.
Josué de CarvalhoA longo prazo as propriedades rurais deverão apresentar um novo cenárioEstefano diz que o agricultor é por natureza um preservacionista, e se comete erros é por falta de informação. ‘‘Certas práticas foram passando de pai para filho, mas sem pensar em prejudicar o ambiente. Nós agricultores estamos, por natureza, ligados à terra e tiramos dela a nossa sobrevivência e de nossa família’’, diz Estefano.
Diante da dificuldade de contabilizar os benefícios das práticas conservacionistas, Estefano comenta que percebe os resultados na melhora da qualidade de vida no campo. E diz que está mudando não pela pressão da lei ou por medo de punição, mas porque está pensando no futuro. ‘‘Meu filho de nove anos recebe muitas informações na escola e está bastante consciente da importância da preservação, e muitas vezes me cobra atitudes.’’
ResultadosNa região de Cambé está funcionando uma unidade-piloto de Manejo Integrado de Praga através de convênio entre Embrapa, Emater e Conselho Municipal de Desenvolvimento. Nesta microbacia são 2 mil ha, envolvendo 12 produtores. ‘‘Em média, dos 24 mil hectares cultivados com soja no município, em 10 mil ha é utilizado o baculovirus’’, informa Luís Artur.
Uma das estradas rurais do município que vinha causando sérios problemas, a Estrada do Meio, que liga Cambé a Prado Ferreira, está com sua recuperação quase terminada. ‘‘A erosão na beira da estrada era enorme e provocou vários acidentes.’’
O depósito de embalagens de veneno, além de evitar a contaminação do solo, contribui para conscientizar o produtor a fazer a tríplice lavagem e levar os vasilhames até o depósito. Na última safra recebeu 13 unidades de embalagens, com a participação de 44 produtores ‘‘Hoje o depósito está cheio, e aguarda retirada que deve ser feita pela Associação Nacional de Fabricantes de Defensivos Agrícolas (Andef)’’, explica.A erosão nas estradas, provocada pela má-conservação dos solos, começa a ser recuperadaCristina Côrtes

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