Investir em iniciativas que reduzam a emissão de gases causadores do efeito estufa pode se tornar um negócio lucrativo para empresários urbanos ou produtores rurais. De acordo com Fábio Feldmann, secretário do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, as medidas estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto, firmado em 1997 entre 59 países, permitem transformar as ações para amenizar o problema em certificados com valor monetário, passíveis de serem vendidos em Bolsas de Valores.
Feldmann fez palestra sobre o tema em um seminário realizado em São Paulo na semana passada, que tratou sobre as oportunidades de negócios geradas pelo Protocolo. Apesar das perspectivas, ele recomenda cautela nos investimentos até os Estados Unidos definirem sua posição com relação ao acordo. O presidente norte-americano, George W. Bush, manifestou intenção de voltar atrás e não aderir ao documento.
‘‘Os EUA são responsáveis pela emissão de 21% dos gases em todo o mundo, ocupando a posição de maior poluidor. Se eles desistirem, Kyoto perde o sentido’’, afirmou
Mudanças climáticas A concentração dos chamados gases de efeito estufa são preocupantes porque ocasionam a mudança global do clima. De acordo com informações do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), a presença de dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e outros gases de origem industrial na atmosfera podem ter elevado a temperatura média na superfície do planeta em meio grau Celsius, nos últimos 150 anos.
No século corrente, previsões indicam que esse aumento poderá chegar até três graus Celsius, acompanhado de um aumento aproximado de meio metro no nível do mar. A preocupação internacional com este fenômeno conduziu à negociação, entre 1990 e 1992, da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, envolvendo 170 países.
A convenção reconheceu que a maior responsabilidade é dos países industrializados, responsáveis por 75% do total de emissões. Mas os países em desenvolvimento, incluindo o Brasil, também possuem a tarefa de introduzir medidas limitando seus lançamentos, contando para isso com o fornecimento de recursos financeiros e acesso à tecnologia dos países industrializados.
O protocoloNa reunião de 1997 em Kyoto, no Japão, os países desenvolvidos assumiram o compromisso de reduzir, entre 2008 e 2012, a emissão de gases a níveis 5% menores que os de 1990. A criação de mecanismos que levem ao cumprimento desse compromisso é, atualmente, o tema principal dos debates sobre o assunto em todo o mundo.
O Brasil defendeu a criação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que prevê a emissão de certificados internacionais, com valor monetário, para projetos individuais que busquem a redução da presença dos gases na atmosfera. Os certificados poderão ser comprados pelos países industrializados e utilizados para demonstrar o cumprimento de suas metas redutivas.
Se as medidas estabelecidas pelo Protocolo forem implantadas, surgirá um novo mercado mundial com oportunidades para empresas que investirem na redução dos lançamentos de gases causadores do efeito estufa. A diminuição pode ser obtida por meio de modificação nos processos industriais ou através de reflorestamento.
Zona Rural De acordo com Fábio Feldmann, os projetos para diminuir a emissão dos gases podem resultar em commodities ambientais passíveis de serem vendidas aos países que precisarão comprovar ações de redução.
Para o produtor rural, acredita, a implementação das medidas do Protocolo de Kyoto configura um grande mercado. ‘‘A opção pelo plantio direto ou investimentos em reflorestamento, por exemplo, podem ser convertidos em títulos’’, disse.
Ele acredita que o governo federal deverá criar condições para que o produtor rural possa aderir aos projetos. Ressaltou, porém, que ainda não há qualquer definição sobra a forma para viabilizar o processo, pois o Protocolo ainda não começou a vigorar. ‘‘Apesar da indefinação, o produtor precisa saber que será possível gerar recursos ao optar por tecnologias menos agressivas ao meio-ambiente’’, comentou.
Impasse Diplomático O Protocolo de Kyoto deveria ter sido ratificado no ano passado, durante a 6ª Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Global do Clima, que aconteceu em Haia, na Holanda.
Por causa da posição dos EUA, as negociações políticas foram adiadas para maio deste ano, durante conferência que reunirá representantes de 180 governos e organizações ambientalistas.
De acordo com o MCT, o país norte-americano aumentou em 11% a liberação de gases poluentes nos últimos dez anos, ao contrário de alguns países europeus, que já estão desenvolvendo políticas limpas. Além dos EUA, Japão e Canadá também estão colocando obstáculos para ratificação do Protocolo.

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