Se o produtor ainda não foca no teor de proteína de soja porque sabe que esse percentual ainda não faz diferença para seu bolso, no caso dos grãos avariados – defeitos do produto considerados na hora da comercialização – ele poderia ter um pouco mais de cuidado. Mas de fato, pelos números de perdas levantados pelo projeto Qualigrãos, da Embrapa, está claro que ele também precisa evoluir neste sentido. Qualidade, definitivamente, ainda não está na cabeça do produtor. “O produtor ainda pensa em quilos por hectare, na balança”, salienta o pesquisador Irineu Lorini, líder do projeto.

A classificação desses grãos avariados é regulamentada pela Instrução Normativa 11 (IN 11), de 2007, que compreende a soma de oito defeitos: ardidos, mofados, fermentados, danificados, imaturos, chochos, germinados e queimados, com tolerância de 8% na comercialização dos grãos. Acima disso, o prejuízo começa.

De acordo com os números levantados pela Embrapa em dez estados, a perda econômica (ou seja, o que o produtor deixou de ganhar devido a esses defeitos da commodity) ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão. O Mato Grosso do Sul liderou o prejuízo, com perda de R$ 392,9 milhões, algo em torno de R$ 155,8 por hectare. O Paraná ficou em segundo lugar, com perda de R$ 307,1 milhões e R$ 58,5 por hectare. O ranking completo está no gráfico ao lado.

Para a Embrapa, os valores levantados com grão de soja avariados constituem um problema de grande magnitude para o agronegócio brasileiro. Um cenário alarmante “que reforça a necessidade de se ampliar ações de transferência de tecnologia relacionada a boas práticas que permitam atenuar a perda expressiva ocorrida”. “É um valor que poderia ser recuperado por meio de tecnologia, técnicas de melhor manejo que poderiam minimizar esse desconto”, ressalta Lorini.

O mais interessante é que entre os oito defeitos citados na IN 11, dois deles acabam sendo responsáveis por quase 85% do montante levantado pela Embrapa, ou seja, são os mais latentes entre as avarias na soja nacional. São eles: grãos fermentados e danificados por percevejo.

O percevejo, sem dúvida, é atualmente a principal praga que atua nas lavouras de soja nacionais. Seu efeito é tão grande que a própria IN, para penalizar menos o produtor, determina que o percentual do defeito seja dividido por quatro. Ou seja, se o produtor entregar 20% da soja picada pelo percevejo, o desconto é só de 5%. “Esse dano depende muito do manejo que o sojicultor faz para controlar o percevejo na lavoura, na época certa, com produtos adequados. Aí cabe um trabalho de assistência técnica e Manejo Integrado de Pragas (MIP), que a Embrapa tem ações fortes.”

Em relação ao defeito de grãos fermentados, o pesquisador cita que isso está ligado às variações climáticas e efeitos genéticos das cultivares. “O grão quando está pronto na vagem e tem excesso de umidade, chuva na colheita, isso prejudica. A dessecação antecipada da soja (também) mata a planta cedo e no grão, ao invés de se formar normalmente, faz com que ele fermente.”

No campo da genética, Lorini explica que há uma variação bem grande entre as cultivares em relação a suportar chuva na colheita. Existem algumas variedades que podem suportar até três chuvas, entre 10 e 15 dias, e outras que não têm essa característica. A grande questão é que o produtor não consegue com as empresas esse tipo de informação facilmente. “Embrapa tem pesquisas nesse sentido para desenvolver um método mais rápido para descobrir isso ou pelo menos que em nossas variedades tenham essa informação.”

Por fim, Lorini salienta que o produtor atualmente está mais preocupado com quanto a lavoura vai produzir para só depois da colheita ver a qualidade e como estão as avarias.

Imagem ilustrativa da imagem Prejuízos com grãos avariados ultrapassa R$ 1 bi; PR é segundo no ranking
| Foto: Folha Arte
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