Preços baixos e mercado parado
Preços baixos e mercado parado
Mesmo com pouco oferta, o preço do boi não reage. Não há boa perspectiva para a entressafra
Cláudia Barberato
O normal neste período do ano, final de safra do boi gordo, seria um mercado mais ativo, de maior oferta de animais, mesmo com o atual preço da arroba, considerado pouco atrativo pelos pecuaristas. É preciso desocupar os pastos para a entressafra. Mas o mercado ficou represado, não só em função do preço da arroba, mas também pela falta de consumo e perspectivas de investismentos no setor.
De acordo com o consultor José Vicente Ferraz, da FNP Consultoria & Comércio, empresa de São Paulo que atua no mercado de cotação de preços pecuários, as boas condições das pastagens, por exemplo, fizeram com que os pecuaristas retivessem o animal por mais tempo no pasto, na espera de melhores cotações. Não funcionou. Há dificuldade de obter uma relação favorável entre custo e lucratividade. Houve também redução nas escalas de abate dos frigoríficos.
Sem perspectivasA partir de agora, com a entrada da entressafra, será necessário desocupar as pastagens. Mesmo assim, Ferraz acredita que essa desocupação será lenta. Até porque o preço da arroba não reage, mesmo com pouca oferta, desde a virada do ano, variando, em São Paulo, entre R$28,00 e R$26,50. No Paraná a média tem chegado a R$24-25,00. Mesmo no momento de pouca oferta, quando os preços deveriam melhorar, a cotação não reagiu. A queda de preços nos últimos 15 dias somou R$1,50 por arroba. E ainda há possibilidade de cair mais até o final da safra, afirmou o consultor na semana passada.
Mesmo assim, segundo ele, sempre haverá pecuarista precisando desocupar o pasto para entrar na entressafra com a área melhorada. A entressafra do boi vai de junho a setembro. Mas não há previsão otimista para um aumento de preços ou consumo, ditado pelo desemprego e baixa remuneração dos consumidores.
A desocupação de animais para abate ainda deverá continuar lenta, mesmo no início da entressafra. Fala-se que o Brasil está em crescimento. Ao meu ver o País está num quadro típico de recessão econômica. O consumo da carne vem caindo e não se acredita em recuperação a curto prazo. Na entressafra os preços deverão evoluir pouco em relação ao que está acontecendo na safra.
Final de safraFerraz prevê para as próximas duas ou três semanas preços ainda em baixa, decorrentes de um possível aumento de oferta no final da safra. O preço deverá ficar no patamar de início de safra. De janeiro a abril, em São Paulo, entre US$26,50 eUS$28,00. Hoje caiu para R$26,00 e ainda poderá cair mais R$0,50. O aumento de oferta deverá derrubar o preço. É possível que em agosto, início da entressafra, o preço se recupere. Mas subirá pouco em função do baixo consumo.
Um pelo outroSegundo o consultor, na entressafra o número de cabeças confinadas e semiconfinadas deverá se inverter neste ano, também devido à baixa cotação da arroba. A previsão é de 1 milhão e 300 mil animais confinados e 1 milhão e 600 mil cabeças no semiconfinamento. No ano passado foi o contrário: foi confinado entre 1.550/1.600 mil cabeças e semiconfinados 1 milhão e 300 mil animais.
A redução do número de animais em confinamento se dá, segundo Ferraz, pelo alto custo da tecnologia. O confinamento é mais caro, exige tecnologia de ponta e a equivalência econômica depende de um preço maior para a arroba do que se está prevendo para este ano.
Já o semiconfinamento não exige altos investimentos. Normalmente o pecuarista faz com seus próprios bois e garrotes e suplementa os animais no cocho, no pasto. Os volumosos neste tipo de técnica, de modo geral, são apenas as pastagens; fornece-se sal mineral e, às vezes, ração. O tempo para que os animais fiquem prontos para o abate varia também de acordo com a quantidade de ração fornecida no cocho. Pode até demorar mais, porém os custos serão menores.
Hoje, de acordo com dados do Boletim Informativo da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), o custo do confinamento no Estado fica ao redor de R$25,00 a arroba. Já o semiconfinamento tem um custo situado abaixo dos R$20,00, o que deverá atrair mais os pecuaristas.
A relação de troca de animais é desfavorável. Há aumento na oferta de boi magro, com preços mais baixos. As áreas plantadas com trigo registram queda e aumenta o plantio de aveia e azevém. Ainda segundo o Informativo da Faep, as condições climáticas deverão assumir papel importante no mercado. Se o clima frio e seco atingir as pastagens, o pecuarista deverá iniciar mais cedo a comercialização dos animais. Outro fator é a redução da renda do produtor de soja, o que de certa forma vem impedindo a intensificação do sistema de confinamento.





