Preconceito atrapalha expansão
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sexta-feira, 17 de outubro de 1997
Silvana Leão 
Mario CesarTecnologiaJefferson Soares: genética tornou possível o consumo de carne suína livre de gorduraComer carne de porco aumenta o nível de colesterol? A maioria dos brasileiros acredita que sim, e ao primeiro sinal de que algo não vai bem com o coração, o lombinho é logo suprimido dos almoços de domingo. Várias pesquisas já comprovaram, porém, que a quantidade de colesterol presente na carne suína é igual ou menor que a de outros tipos de carne.
Mesmo assim o preconceito - originário de uma época em que as criações eram basicamente de porco tipo banha - ainda é o maior obstáculo ao aumento do consumo da carne suína. Antigamente os animais eram alimentados com sobras de comida e restos culturais obtidos nas propriedades. Eram criações de fundo de quintal, basicamente de subsistência. Hoje a realidade é outra, mas a idéia de que os suínos só comem lixo persiste, esclarece o professor e especialista em reprodução animal Jefferson A. G. Soares, do Departamento de Clínicas Veterinárias da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Avanços tecnológicosO professor explica que os avanços na genética, aliados aos trabalhos de cruzamento, eliminaram a gordura da carne suína, e hoje já não existe mais mistério na produção de carcaças com 56%, em média, de carne magra. O objetivo, até o ano 2000, é elevar este índice para 60%. Segundo o professor Jefferson, que também é vice-presidente técnico da Associação dos Produtores de Suínos do Norte do Paraná (Suinopar), estes avanços deram uma característica única à carne suína, a de ter a gordura praticamente toda concentrada junto à pele, facilitando a retirada, caso o consumidor prefira a carne magra.
Se uma pessoa consumir 100 gramas por dia de carne de porco, estará consumindo apenas 1/3 das necessidades diárias de colesterol exigidas pelo organismo. Isso sem falar que, dentro dos limites desejáveis, esta substância é necessária para o bom funcionamento do corpo humano. Uma das funções do colesterol, de acordo com Jefferson Soares, é ser o precursor de vários hormônios.
Imagem distorcidaNa opinião do professor, a falta de esclarecimentos em relação à carne suína começa na própria classe médica: Os cardiologistas e médicos de maneira geral estão mal informados. Tanto que, em casos de problemas cardíacos, a primeira providência é requisitarem o corte da carne e seus derivados da dieta.
Da lista de tabus que envolvem o tema também faz parte a questão da cisticercose. Erroneamente acredita-se que quem consome a carne contaminada com a canjiquinha vai desenvolver a doença, porém isto só acontece quando são consumidos os ovos do verme, que se alojam, na maioria das vezes, nas fezes do animal. Por isso, existe um risco muito maior nas verduras produzidas em hortas que utilizam esterco contaminado. A carne pode causar, no máximo, uma verminose, diz Jefferson.
Outro argumento do especialista em suínos é que a carne comercializada nos bons açougues e supermercados são inspecionadas, o que elimina o risco de contaminação. A criação industrial, nos moldes como é feita atualmente, também contribui para a qualidade do produto, na medida em que os animais são alimentados apenas com ração, descartando o uso de restos de alimentos. Além disso, o plantel recebe todos os vermífugos para que não venha a desenvolver a cisticercose. E mesmo que isto venha a acontecer, o consumidor da carne vai desenvolver apenas a teníase, que já é o parasita na forma adulta, observa o professor.
Fonte de mineraisPara aumentar o consumo da carne suína no Brasil, que ainda é muito baixo se comparado com o registrado em países europeus (de 9 a 10 quilos/habitante/ano, enquanto na Alemanha se consome uma média de 40 kg/habitante/ano), o vice-presidente da Suinopar acredita que seriam necessárias campanhas de esclarecimento junto à população, além da sua inclusão na merenda escolar. Trata-se de uma carne rica em minerais e vitaminas, capaz de suprir grande parte das necessidades do organismo, argumenta.
Os problemas relacionados ao mercado, outro obstáculo para a expansão da suinocultura, são causados principalmente pela oscilação no preço do milho, principal componente da ração, e pelos atravessadores, que elevam demasiadamente o preço da carne para o consumidor final. Enquanto o produtor paranaense está recebendo em torno de R$ 1,00 o quilo, a dona-de-casa tem pago em média R$ 4,00/kg. A gente costuma dizer que do portão da granja para dentro a suinocultura vai muito bem aqui no Estado - trata-se de uma das mais desenvolvidas do País - mas da granja para fora estão os grandes problemas, diz Jefferson Soares.


