Preço mal paga a produção
José Procópio Lima Azevedo
Agora que o preço do café está tão próximo da cotação (US$150,00 posto Nova York), que serviu de base para o Acordo Internacional do Café, em 1962, cumpre indagar por que esse preço era considerado ideal e hoje mal paga os custos de produção.
Em primeiro lugar é preciso quantificar o valor do dólar nestes 36 anos. Sem dúvida de erro, neste período o dólar desvalorizou-se 90% (noventa) por cento. O que se comprava com US$1,00 em 1962, hoje necessita de 10 dólares.
Vemos, portanto, que aqueles US$150,00 seriam hoje US$1.500,00, ou então os US$150,00 de agora correspondem a US$15,00 daquele tempo. Dá para tirar uma infinidade de ilações desse fato, mas o principal é mostrar porque a cafeicultura empobreceu tanto e não consegue mais reduzir os custos de produção.
Naqueles US$1.500,00 cabia confisco cambial e ainda sobrava lucro para o cafeicultor, isso não esquecendo do enorme benefício que estávamos dando aos nossos concorrentes, que como a história mostrou, souberam aproveitar muito bem.
Como é possível produzir café a menos de US$10,00 o saco (dólar comparativo 1962/1998)? Podemos constatar que as safras de café se desvalorizaram fantasticamente nestes 36 anos. Tem um poder aquisitivo 10 vezes menor. Com 20 sacos se comprava um carro zero; hoje - são necessários 200 sacos. E por ai vai.
Qual a razão de chegarmos a esta situação? É evidente que a produção mundial cresceu muito, estimulada pela sustentação dada pelo Brasil.
O período pós-acordo 1989/1993 trouxe os preços a níveis insuportáveis o que fez a produção mundial despencar. Só as geadas de 1994 deram novo alento ao mercado, à custa do Brasil.
No ano passado a safra brasileira, de 18/20 milhões de sacas, foi ínfima em consequência dos maus tratos anteriores e também da geada.
Essa enorme queda de valor real do café é atribuída exclusivamente à saída do Brasil como suporte do mercado.
Para substituir o ‘‘guarda-chuva’’ do Brasil, que nos custou tão caro, seria necessário financiamento amplo a juros de Primeiro Mundo, utilizados por todos produtores mundiais.
No valor pago pelo consumidor final no Exterior, na xícara a matéria-prima café entra com índice de 1% a 2%. Portanto, um aumento de 100% na matéria-prima quase nada representa para o consumidor final.
Os estoques no mundo estão baixos, tanto entre produtores como consumidores. A única pressão no mercado é a colheita de uma grande safra no Brasil. Por isso só depende de nós, que somos os vendedores, colocar o mercado no seu justo valor.
O autor, residente em São Paulo, é estudioso da economia cafeeira.

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