Prática antiga de volta ao café
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sexta-feira, 26 de março de 1999
Luciane Tonon 
Inteirado dos resultados de culturas intercalares nos cafezais da região Norte do Estado, como a implantação do consórcio café-feijão guandu, por exemplo, o agricultor Orlando Fernandes, 51 anos, de Itambaracá (16 km a leste de Cornélio Procópio), resolveu fazer uma nova experiência para aproveitar ao máximo sua propriedade, o Sítio São Domingues de 9,2 hectares, e misturou cinco culturas diferentes, com seu plantio de café adensado.
Orlando Fernandes: resultado positivo da intercalaçãoO resultado tem sido uma ótima lavoura. Numa área de 1,6 hectare, com 7 mil pés de café, Fernandes intercalou duas variedades de arroz de sequeiro, feijão guandu anão e gigante, amendoim-cavalo e o feijão comum rasteiro. São culturas de subsistência, mas que desse pedaço de terra ele está tirando para o consumo anual da família, e ainda lucra com a venda do restante.
Mistura totalHá um ano, Fernandes plantou café pela primeira vez em sua propriedade. Eu vi que o sol estava judiando das plantas e resolvi intercalar o guandu gigante, contou. Com a melhora, o agricultor percebeu que também poderia intercalar a adubação verde, e plantou o feijão rasteiro.
O feijão produziu bem e depois da colheita experimentei o arroz e o amendoim. Ficou uma mistura total, mas os espaços bem aproveitados, disse o agricultor, que investiu R$ 8 mil na área.
O técnico da Emater/Paraná em Itambaracá, Jaci Fernandes de Souza, explicou que a estimativa de produção de arroz naquele terreno será de 1,9 mil quilos (30 sacas). Se não tivesse o café, Fernandes poderia colher 3,7 mil quilos de arroz. Ele vai produzir mais da metade e ainda contar com o lucro das outras culturas, disse o técnico. Cada saca (60 quilos) de arroz será vendida a R$20,00. A saca (25 quilos) de amendoim, renderá R$25,00. O feijão, por enquanto, servirá para consumo próprio e adubação verde.
Cilésio Demoner, Jaci Fernandes e o produtor, na lavoura de arroz intercaladoAlternativaO uso de culturas intercalares é uma ótima alternativa para pequenos produtores, pois, além de aumentar a renda familiar com a produção de alimentos de subsistência, diminui os custos de formação e produção; mantém cobertura morta sobre o terreno, melhora o solo, funciona como quebra-vento temporário e ainda gera empregos, afirmou o coordenador regional da Emater em Cornélio Procópio, Cilésio Abel Demoner.
Ele disse que o uso de culturas intercalares, como arroz, feijão e milho, era uma prática usada desde a introdução do café, na época da colonização da região. Os grandes cafeeicultores sempre foram pressionados por seus colonos e meeiros, para aproveitamento do espaço deixado entre as linhas da lavoura cafeeira, lembrou Demoner. Segundo ele, em troca do terreno já cultivado e dos insumos necessários ao plantio da cultura intercalar, os colonos se comprometiam a manter, todas as linhas da lavoura, livres de plantas daninhas, o que possibilitava uma redução significativa do custo de produção da saca de café.
Culturas intercaladas ao cafezal melhoram o solo e aumentam renda nas pequenas propriedadesNo entanto, muitas vezes a experiência dava resultados negativos, devido à concorrência pela água, luz e nutrientes. Essa concorrência prejudicava o desenvolvimento das lavouras novas e diminuía a produção de lavouras adultas.
A partir da década de 70, com a necessidade de combate mecanizado à ferrugem, os cafeeiros da região passaram a ser plantados no sistema de renque, ou seja, em ruas de quatro metros e distância entre plantas de 1 a 2 metros, visando a pulverização mecanizada com fungicidas cúpricos. Isso possibilitou aos cafeicultores o uso das culturas intercalares em parte do ano, sem maiores prejuízos, acrescentou Demoner.
Como o café adensado foi introduzido na região para diversificação e viabilização da pequena propriedade, Demoner recomendou que, em função do pequeno espaçamento, a intercalação seja utilizada apenas nos dois primeiros anos de cultivo. E mesmo assim somente com arroz e feijão e com uma a duas linhas na rua do café, de modo que não venha a interferir e competir com o café, mas complementar, explicou.
Além do consórcio café-guandu e culturas de subsistência, são também utilizadas adubação verde com crotolária e mucuna-anã, e cobertura do solo com amendoim-cavalo, técnica estimulada na região pelo Governo do Estado, através da Emater e do Iapar.


