‘‘Resistência de pragas a agrotóxicos’’. Este foi o tema de seminário promovido pelo Ministério da Agricultura e do Abastecimento (MAA) na Embrapa-Soja, em Londrina. Durante dois dias, pesquisadores de várias instituições e empresas de pesquisa, universidades e da iniciativa privada, estiveram reunidos, discutindo o problema, que vem afetando seriamente lavouras da Europa e dos Estados Unidos. O enfoque principal do evento foi a elaboração de um documento para subsidiar definições políticas e estratégicas do Ministério sobre o tema.
Segundo o representante da Coordenação de Fiscalização de Agrotóxicos do MAA, Júlio Sérgio de Britto, o problema de resistência de pragas a agrotóxicos não tem, no Brasil, dimensões como na Europa, mas é preocupante. ‘‘Se não tomarmos precauções agora, poderemos enfrentar situações similares, onde algumas culturas tiveram que ser abandonadas devido à ineficácia dos produtos nas pragas resistentes’’, argumentou.
Defesa da pragaO pesquisador da Área de Plantas Daninhas da Embrapa-Soja, Dionísio Gazziero, explicou que a resistência acaba ocorrendo devido à própria genética da praga. Ou seja, é uma forma natural de defesa. Ele observou que as principais causas do problema são o uso do mesmo produto químico, ou de produtos com marcas comerciais diferentes, mas com o mesmo modo de ação e a não-adoção de práticas de manejo da cultura.
O processo, segundo Gazziero, funciona através de pressão e seleção. ‘‘Os agrotóxicos acabam não agindo em indivíduos (pragas ou plantas daninhas) com característica de resistência. O uso contínuo do mesmo produto acaba, ao longo do tempo, selecionando esses indivíduos e tornando aquele tipo de agrotóxico ineficaz’’, explicou.
Gazziero disse que no Brasil já existem diversos casos de resistência de plantas daninhas e pragas a agrotóxicos, mas o problema é relativamente novo. Segundo ele, em algumas lavouras do País foi detectada resistência em algumas plantas daninhas, como o capim-marmelada e o amendoim-bravo. ‘‘Em diversos países do Mundo, os produtores de milho enfrentaram grandes problemas com o uso contínuo de herbicidas à base de triazina’’, disse. Casos de resistência a outros agrotóxicos e em outras culturas também foram registrados.
IneficáciaO pesquisador, que desenvolve projeto sobre o assunto na Embrapa-Soja e faz parte do Comitê Brasileiro de Resistência de Plantas aos Herbicidas, alerta: muitos casos de ineficácia do produto são atribuídos pelos produtores à resistênciaa, enquanto o problema está na aplicação inadequada. ‘‘Para evitar esse tipo de dúvida e, principalmente, para prevenir que o problema da resistência chegue até a lavoura, os agricultores devem adotar técnicas apropriadas, como manejo de pragas e plantas daninhas, rotação de culturas e rotação de produtos, entre outros. Mas todos os procedimentos devem ser acompanhados por profissionais da assistência técnica’’, recomendou.
O representante do Ministério, Júlio Sérgio de Britto, resssaltou que o problema tem reflexos também na indústria. Ele exemplifica com dados econômicos que apontam a necessidade de gerar uma nova molécula para combater pragas ou plantas daninhas, e envolvem investimentos em torno de R$ 150 milhões.
A situação se agrava ainda mais com a dificuldade de encontrar essas novas moléculas. ‘‘Tudo isso reflete em dificuldade também para os agricultores e para a agricultura. Daí a importância dos estudos desenvolvidos pela comunidade científica, durante esse seminário, que serão fundamentais na definição de prioridades do Ministério’’, disse.

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