Pra sempre, lar doce lar

Minha mãe nem sabe que nos dias de hoje, os cuidados com a casa lhe dariam o título de "personal organizer"

Walkiria Vieira - Grupo Folha
Walkiria Vieira - Grupo Folha

Pra sempre, lar doce lar
Marcos Jacobsen
 


O tempo livre é mesmo revigorante e cada um tem sua forma de aproveitar o ócio. Há quem enxergue o descanso como uma chance e tanto para colocar as gavetas em ordem, se desfazer do que não mais tem serventia e até  se alegrar ao rever o que já se dava como perdido. A limpeza e a arrumação são até hoje marcas registradas de minha mãe, Arlete, e certamente heranças da minha avó, Aurita - lembrada até hoje por furar panelas de alumínio de tanto ariar as peças que o fogão à lenha se encarregava de pretejar.


Já há algum tempo, diante dos tantos papéis assumidos, as casas são mais práticas, algumas panelas já chegam pretas da loja, muitas roupas não exigem ferro de passar e há produtos de limpeza que deixam tudo com bom cheiro e vistoso. A praticidade é parte do planejamento doméstico- do piso ao teto, sendo possível equilibrar os cuidados com a casa e outras tarefas como trabalhar fora, estudar, passear e até fazer trabalhos manuais. Otimizar o tempo talvez seja desafio de todas as profissões e das donas de casa também.




Todos os dias junto com o canto dos passarinhos, minha mãe já está com o café pronto. Não tem mais crianças com horário para entrar na escola ou compromisso marcado, mas gosta de pular cedo da cama.


Costuma dizer que a manhã é curta e por isso, só sai do quarto com a cama feita. Seu ritual matinal inclui deixar em ordem a roupa, retirar os lixinhos dos banheiros e programar o almoço. Ainda troca a água do Bob, o cachorro da casa, e recolhe até as folhas da árvore do vizinho.


Sente-se bem assim. Em seus pensamentos, a porta da casa já indica o capricho da proprietária e o seu zelo se estende até a parte dos fundos. Gosta de rastelar a grama do jardim, tem prazer das orquídeas suspensas nas árvores e também do coqueiro, que lhe dá uma grande satisfação: oferecer água de coco gelada a quem chega na época da colheita.


A mão boa para as plantas é também uma qualidade dela. O alecrim, as suculentas, a melissa e a zamioculca foram mudas que ganhou, vingaram e dão gosto de ver. 


Dentro da casa, tudo no lugar. Sem os quatro filhos em casa, ainda mantém os quartos impecáveis e não fez de nenhum deles, sala de TV. Quando chegam os filhos e netos, a família ocupa toda a casa. As crianças brincando no jardim, a comilança do dia todo e a falta de horário pra acordar chegam a confundir a dona da casa - que chega a se perder no tempo quando as visitas chegam para as férias.


"Nossa, é segunda? Parece domingo!", pensa em voz alta. É verdade, quebramos a rotina da mamãe, fazemos ela deixar as vassouras de lado - até chegamos a escondê-las - e insistimos para que não se curve tantas vezes ao dia à fuligem da queimada de cana-de-açúcar, que cobre a área da casa. Quando toma seu lugar na roda de conversa, reflete que será estranho quando todos forem embora de uma vez. "Fica tão estranha a casa". O ninho vazio passa por mim feito assombração.




Os meus passarinhos ainda estão debaixo da asa, mas sei do que fala minha mãe. Sigo de papo por ar com os parentes, ao mesmo tempo em que me distraio dobrando as sacolinhas vazias do mercado para ornarem com toda a organização da casa.

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