Mário CesarMenos carneNo ano passado aumentou o consumo de carne no País e caiu o número de animais nascidosEstá faltando bezerros para repor o plantel da pecuária nacional. Esta é a tendência que vem sendo registrada nos últimos meses, provocando algo incomum nesta época do ano: a manutenção das cotações em patamar elevado, mesmo estando em plena safra. A origem do fenômeno foi o abate indiscriminado de matrizes nos anos de 95 e 96, motivado pelas dificuldades financeiras dos produtores na época de implantação do Plano Real e pelo aumento do consumo de carne pela população.
‘‘Nos leilões, a liquidez tem sido de 100%, provando que o mercado no momento é comprador’’, afirma Elton Baccarin, gerente da Programa Leilões, de Londrina. Ele lembra que a cotação da arroba do boi na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BMF), para outubro, é de aproximadamente US$ 28,00, indicando que o mercado deve continuar praticando bons preços até o final do primeiro semestre e início do segundo, quando normalmente os valores de reposição caem, pela pouca oferta de pastos no inverno.
Segundo Baccarin, o preço atual do bezerro é praticamente o mesmo nos Estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná: em torno de R$ 150,00. Este valor, de acordo com o pecuarista e diretor da Sociedade Rural do Paraná, Humberto de Almeida Barros Jr., é cerca de 25% maior que o de anos anteriores, nesta mesma época. ‘‘É um preço que satisfaz o produtor e é capaz de manter o consumo da carne no País’’, acredita o pecuarista.
Ele esclarece que no ano de 93 o Brasil tinha um consumo de carne em torno de 4 milhões de toneladas, passando para um volume entre 4,2 e 4,3 milhões em 95 e chegando, no ano de 96, a 5,4 milhões de toneladas. Este aumento de consumo no ano passado corresponde, de acordo com Barros, a 5,5 milhões a mais de cabeças abatidas. Em contrapartida, o número de bezerros nascidos no País passou de 32 milhões em 94 para 26 milhões em 96.
PrecocidadeAtualmente o consumo per capita de carne no País é de 36 kg/ano. Para que este índice seja mantido, na opinião de Humberto Barros, a pecuária nacional precisa, mais do que nunca, trabalhar no sentido de buscar a precocidade, abatendo os animais cada vez mais cedo. ‘‘Dentro da estabilidade financeira, o setor vai ter que procurar novos rumos, baseados na modernização da produção. E esta modernização só é conseguida através do uso da tecnologia, do domínio da informação e da obtenção da qualidade’’, define o pecuarista.
Estas também são condições para que a pecuária nacional conquiste de vez o mercado internacional, hoje ainda restrito pelo fantasma da aftosa. ‘‘Muito em breve nós estaremos totalmente livres deste problema, e aí o País terá acesso muito mais fácil às exportações’’. Para exemplificar, Barros lembra que hoje em dia os Estados Unidos só importam do Brasil carne destinada à industrialização, que elimina o risco de qualquer contaminação.
A profissionalização do pecuarista também é importante para o sucesso no próprio mercado interno. Em 96 o Brasil importou aproximadamente 100 mil toneladas de carne da Argentina, Uruguai e Paraguai. A qualidade desta carne, principalmente da uruguaia e argentina, é muito boa, competindo com o produto brasileiro.
EquilíbrioA necessidade de conseguir os melhores resultados aponta para tendências como o cruzamento industrial (que funde no mesmo animal a rusticidade do gado zebu com a precocidade do europeu) e a exploração racional das pastagens, que em muitos casos requer investimentos na melhoria da solo para poder manter um número maior de animais por hectare de terra.
Na opinião de Humberto Barros, a pecuária, a exemplo de outros setores da economia, tende a buscar um equilíbrio nos preços, mantendo-se entre R$ 25 e R$ 27 a arroba do boi, com pequenas oscilações, dependendo da região do País e da época do ano. ‘‘Na entressafra (de agosto a outubro), como de costume, devem acontecer os aumentos repentinos nos preços’’, prevê o pecuarista, lembrando que o mercado, nos meses de queda de produção, só não ‘‘explode’’ porque é amparado pelo rebanho criado em sistema de confinamento, hoje estimado em 1,2 milhão de cabeças.

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