Por uma soja mais resistente
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sexta-feira, 21 de maio de 2004
Camilla Rigi<br>Reportagem Local 
Chegar a uma variedade de soja muito produtiva e resistente às doenças mais conhecidas, como a ferrugem, é o objetivo dos pesquisadores da Tropical Melhoramentos & Genética (TMG), ligada à Fundação de Apoio a Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso Fundação MT. Com sede em Cambé (13 km a oeste de Londrina) desde 1999, a empresa tem atividade em vários Estados. Neste período, já foram realizados mais de 10 mil cruzamentos.
Segundo o engenheiro agrônomo e coordenador da TMG, Arlindo Harada, em dois anos a TMG deve lançar uma nova variedade para a região sul. Para isso, as linhagens são testadas em diversas regiões do Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo. ''A região de Londrina é ideal para a instalação, pois é o ponto mais ao norte para atender o Sul e um ponto ao sul que antende o norte. Além disso, há um clima intermediário, temperado e tropical, devido a proximidade com o Trópico de Capricórnio'', explicou o também engenheiro agrônomo Romeu Kiihl, conhecido como o ''pai da soja no Brasil''.
A equipe trabalha com os ''métodos tradicionais'', como o cruzamento de diferentes gerações, mas não descarta o uso de plantas geneticamente modificadas. ''Temos parceria com a Monsanto e intenção com outras empresas. E se alguém introduzir um gene que resista a ferrugem, nós teremos interesse em utilizar esta planta para cruzamentos'', declarou Kiihl.
Uma das estratrégias para o cruzamento é a seleção por produtividade e a outra por substituição de fatores restritivos por fatores não restritivos. Um exemplo disto seria a substituição de cultivares suscetíveis ao Nematoide de Cisto (microorganismo que infecta as raizes e se alimenta delas, baixando a produtividade) por outras mais resistentes.
De acordo com informações do Departamento Econômico da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), os produtores cujas lavouras foram atacadas pela ferrugem este ano tiveram prejuízos de R$ 3,4 bilhões. Por isso, Kiihl defende que os pesquisadores compartilhem os avanços conseguidos nestas áreas para o bem do país. ''Pode ser que cada um descubra alguma coisa, mas pode ser que a solução seja a união delas'', exemplificou o engenheiro agronomos.
Ele recorda que o rápido desenvolvimento do cultivo da soja no Brasil ocorreu graças à integração das pesquisas, antes da lei de Proteção de Cultivares, de 1997, que concedeu os direitos de exploração comercial ao melhorista que a desenvolveu. ''Hoje, em condições ótimas de clima e solo, já é possível produzir sete mil quilos de soja por hectare. Na década de 60, se alguém dizia que produzia 70 sacas por alqueire, equivalente a 1.750 kg por hectare, achava-se que esta contanto vantagem'', contou Kiihl.
A troca de informações e o cruzamento de linhagens de elite foram os fatores responsáveis pelo avanço. ''Todos podiam usar estas plantas em novos cruzamentos. Após a lei, as empresas se fecharam por motivos econômicos'', constatou o engenheiro.
Ele acredita que se não houver a cooperação entre os pesquisadores, a descoberta de uma cultivar resistente a ferrugem pode demorar anos. As únicas plantas resistentes a esta doença, que são de origem japonesa, não se adaptaram ao clima do Brasil.
O que Kiihl e Harada defendem - com a autoridade de pesquisadores que contribuiram para a expansão da soja no Brasil - é que as empresas de pesquisas, privadas ou públicas, promovam a troca de conhecimentos, pelo menos em casos específicos como o da ferrugem. Os pesquisadores podem e devem revelar a fonte descoberta; é possível fazer cruzamentos em conjunto. O material descoberto pode e deve ser disponibilizado para que haja avanço na busca da solução de problemas.
Quando uma instituição identifica uma fonte de resistência a qualquer doença essa instituição deve disponibilizar esse conhecimento para outras instituições científicas. ''Quem ganha é a ciência e o Brasil'', resume Harada. Com esse soma de esforços a pesquisa brasileira pode encurtar o caminho para o lançamento de variedades com atributos genéticos desejáveis.
Arlindo Harada e Romeu Kiihl deram grande contribuição ao melhoramento genético da soja no Brasil. O primeiro, através da Cooperativa Central de Pesquisa, ligada às cooperativas, Codetec, e o segundo, através da Embrapa. Graças a pesquisas desses cientistas, o agricultor brasileiro tem a melhor tecnologia em melhoramento de soja, superando em muitos aspectos, o padrão tecnológico norte-americano. Agora eles estão juntos na Tropical Melhoramentos & Genética (TMG) e podem contribuir ainda mais para a competitividade da soja brasileira.


