Por trás do brete
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Prepare-se. A porteira vai abrir e o bicho vai pegar. Cercado por cifras milionárias e números altos, o rodeio lota arenas Brasil afora. Ao mesmo tempo, muita gente protesta contra a realização desses eventos. Os críticos defendem que os animais sofrem maus tratos para pularem ferozmente com o peão no lombo.
Para entender melhor como gira esse mundo que têm nos animais e nos corajosos ''cowboys'' os astros principais, a FOLHA foi para trás do brete durante a final do rodeio da Expo Londrina 2008. Trata-se de um ambiente ímpar de homens de botas, chapéu e esporas que sonham em ''parar'' sobre o bicho. É lugar de tensão, brincadeiras e oração. No final de tudo, um depoimento surpreendente do grande campeão da etapa: ''O rodeio é uma aventura. Quero encerrar logo a minha carreira''.
Os preparativos começam ainda antes do anoitecer, com as arquibancadas vazias. De forma praticamente anônima, Geraldo Aparecido Souza, 30 anos, nascido e criado em uma fazenda de Carapó (MS) lava as porteiras de onde os touros vão sair poucas horas depois.
Ele é ''porteireiro'', o homem encarregado de abrir as porteiras e liberar os peões para a aventura dos oito segundos. Ganha R$ 500,00 pelos três dias de evento, porém o que Geraldo quer mesmo é ir pra riba dos animais. Ele também é peão, já ganhou quatro motos em provas que disputou, o problema é que a fila por uma vaga nos eventos da Professional Bull Riders (PBR), a liga americana que montou filial no Brasil há três anos, é grande. Neste ano, foi o pessoal da PBR que organizou o rodeio em Londrina. Com a promessa de abrir as portas dos Estados Unidos e dos milhões de dólares para os brasileiros, a liga está atraindo cada vez mais peões e ganhando terreno no cenário nacional de rodeio (veja nesta página).
Já é praticamente noite quando os touros chegam ao recinto João Milanez. São quase 50 animais que devem ser separados de acordo com o sorteio feito previamente. Cada um tem o seu peão e uma ordem pré-estabelecida da entrada de cada competidor na arena. O encarregado de separar os bois e deixá-los na ordem correta é Marcos Antônio de Oliveira, 28, um peão que desistiu de competir em 2007 depois de perder três dentes em uma queda.
Chama a atenção a habilidade de Marcos Antônio com os animais. Ele conhece cada boi pelo nome. E é assim que ele vai chamando os bichos que prontamente o atendem. ''A maioria dos bois sabe o nome que tem'', explica o peão. No entanto, para garantir o manejo da boiada é preciso mais do que conhecer os animais. Um aparelho chamado condutor, que aplica choques elétricos de 70 volts, é instrumento indispensável para essa tarefa.
Depois de ter passado fome no início da carreira, Marcos Antônio ganha R$ 800,00 por mês da PBR para separar bois nas competições organizadas pela entidade. ''O início da carreira de um peão é muito difícil'', ressalta. Sobre os maus tratos aos bichos, ele é enfático. ''Quem crítica o rodeio não sabe do que está falando.'' Porém, em seguida admite que existem casos de animais que não recebem o tratamento adequado. ''Tem tropeiro que quer ter boiada, mas não tem condições...''
Aproxima-se a hora do início da competição, chegam o público e os peões. Vendo seus heróis se movimentarem perto do brete, o povo grita da arquibancada. Regivane Brito, 23, cowboy ainda com cara de garoto e um dos líderes do ranking da PBR não perde a chance: grita, acena, bate as botas nas tábuas que sustentam o pessoal atrás do brete. O rapaz, que vem da pequena Valentim Gentil (SP), gosta de um agito.
Bagunça à parte, os momentos que antecedem as montarias são marcados pelo vai e vem das mãos dos peões. Eles passam o breu - um grude feito à base de resina de plantas - em suas cordas americanas. É para ajudar a segurar. Uns procuram se concentrar, alguns conversam e outros rezam. É o caso de Ricardo Rosseto, 25, de Colorado, noroeste do estado. De joelhos dobrados, ele ora com fervor. ''Essa nossa profissão é muito perigosa. É um serviço e um sonho ao mesmo tempo, mas sei que tendo Deus à minha frente nada vai me acontecer.''
É hora do show começar.


