O desafio de compatibilizar a necessidade de aliviar a pobreza no meio rural, com o desenvolvimento sustentado, sem agredir o meio ambiente foi o grande tema que monopolizou as atenções durante o 10º Congresso Mundial de Sociologia Rural, realizado no início deste mês no Rio de Janeiro. Simultâneamente ao Congresso Mundial, foi realizado o 38º Congresso Brasileiro de Economia e Sociologia Rural. O tema geral abordado foi a ‘‘Agricultura no limiar do Milênio’’.
A professora Vânia Di Addario Guimarães, da Universidade Federal do Paraná, que está desenvolvendo tese de doutorado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Piracicaba-SP), apresentou três trabalhos, abordando as transformações na política econômica que afetam diretamente o meio rural. Os participantes dos congressos apresentaram cerca de 60 trabalhos.
Distribuição de rendaA preocupação com a redução da linha da pobreza, através de maior distribuição de renda, e a necessidade de ter uma agricultura competitiva vêm ganhando cada vez mais espaço nesse início de milênio. Vânia Guimarães destaca que representa um avanço o fato de representantes de muitos países estarem buscando a solução desse problema. ‘‘Esse dilema, apesar de se revelar com grande intensidade em nosso país, também é motivo de preocupação em outros países’’, frisou.
O primeiro trabalho apresentado pela professora Vânia Guimarães foi sobre os novos instrumentos de política agrícola, como Prêmio de Escoamento da Produção (PEP) e Contratos de Opção. O trabalho teve a supervisão do professor Geraldo Barros, da Esalq. Ela fez uma comparação entre os novos instrumentos de comercialização, em substituição aos instrumentos existentes anteriormente como Aquisição do Governo Federal (AGF) e Empréstimos do Governo Federal(EGF).
O trabalho versou sobre a eficácia dos novos instrumentos. Guimarães concluiu que aparentemente eles são mais eficientes no atendimento às necessidades dos produtores. Mas, frisou que essa eficácia só poderá ser provada realmente quando tiver uma supersafra. ‘‘ Isso porque o Governo terá que ser rápido, para organizar os leilões do PEP e fazer os contratos de opção, sob pena dos preços dos produtos cairem rapidamente no mercado e ficarem abaixo do mínimo’’, explicou.
Para a professora, em caso de superprodução, se o Governo não for efetivamente ágil, dificilmente conseguirá cumprir o objetivo desses instrumentos de política agrícola.
Outro trabalho apresentado por Vania Guimarães em conjunto com José Roberto Canziani, também professor da UFPR, teve muita repercussão no Congresso. O tema abordou a avaliação do risco do produtor no plantio de soja e milho no Paraná. Ela procurou saber qual era a proporção da área plantada de soja e milho, que minimizava o risco dos produtores paranaenses. Vânia mediu o risco, utilizando a receita bruta obtida com a venda da produção, menos o custo variável de produção. Para a simulação da margem bruta da soja e milho, recorreu a 16 variáveis ao mesmo tempo, entre elas a produtividade, os preços de mercado e dos insumos.
No total foram feitas cerca de 500 simulações voltadas exclusivamente para as condições das propriedades do Norte do Paraná. A conclusão é que a situação de menos risco para o produtor foi daquele que planta 63% da área com soja e 37% com milho, durante o período de safra de verão. ‘‘ O curioso é que nas duas últimas safras o produtor paranaense plantou 65% de soja e 35% de milho, o que demonstra que ele está procurando o mínimo de risco’’, constata.
O terceiro estudo apresentado, em conjunto com o professor Valter Galan, da Esalq, abordou o mercado do leite no Brasil, que também será tema de um livro a ser editado ainda este ano. Vânia Guimarães e Galan constataram que nos últimos 10 anos ocorreu uma participação maior das grandes empresas no mercado do leite, mas esse avanço ainda não é um oligopólio. Isso porque essa participação, apesar de ter crescido no País, ainda é considerada pequena.
O trabalho teve como objetivo conhecer como o setor leiteiro vem se adaptando com as grandes mudanças que vêm ocorrendo no cenário econômico durante a década de 90, quando a abertura das importações e a instalação das grandes empresas exerceram influência decisiva sobre o sistema de produção. A conclusão é que a produção brasileira de leite aumentou, enquanto o número de produtores caiu. O volume de produção por produtor cresceu, apesar de se manter ainda num patamar baixo quando comparado a outros países produtores de leite. ‘‘ Mas já ocorreram avanços’’, destaca.

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