Plástico biodegradável de cana
Da Redação
Um dos sérios problemas enfrentados pelas usinas de açúcar e álcool de cana é o consumo desaquecido, os estoques que se acumulam e impedem a industrialização da cana. Mas, essas indústrias podem ter uma nova possibilidade de renda, a produção de plástico a partir da própria cana, e a Alemanha poderá abrir o mercado internacional para essa alternativa da álcooquímica.
Segundo notícia divulgada pela Agência Brasil, a Cooperativa de Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar) enviará como amostra a duas empresas alemãs, dentro de um mês, uma tonelada de plástico biodegradável à base de cana-de-açúcar, produzido por seu Centro de Tecnologia, em Piracicaba, a 140 quilômetros da capital. Segundo o engenheiro químico, Carlos Vaz Rossel, chefe da Divisão de Tecnologia e Processos, as negociações para o acordo de exportação estão em andamento e é possível que se consumem, com o envio de mais essa remessa para testes.
ExpectativaTenho fé de que eles aprovarão, aposta Rossel. Ele conta que nesse período foram mandadas outras amostras menores e que o próximo pedido alcançou a maior quantia até agora. As empresas são processadoras de plástico de grande atuação na Alemanha, cujo interesse por um produto biodegradável se baseia numa exigência do governo, que pretende substituir até o ano 2060 pelo menos 60% do plástico comum consumido no país.
De origem petroquímica, o plástico comum leva cem anos para ser degradado nos aterros sanitários, quando não é separado para reciclagem. Já o plástico biodegradável à base de cana-de-açúcar pode ser consumido em semanas. Ele é um polímero que pode ser usado na fabricação de embalagens para alimentos diversos, vasilhames, copos, filmes e embalagens multifolhadas.
Rossel observou que o plástico biodegradável, batizado de PHB (plihidroxibutirato), ocupará um nicho de mercado próprio. Ou seja, ele não vê a possibilidade de que o novo material venha a substituir totalmente o plástico convencional (polietileno e polipropileno), por uma questão da natureza do uso. É o caso, por exemplo, das lonas plásticas usadas para compor estruturas da construção civil. Por ser biodegradável, não será interessante usar o PHB nesse caso, observa o engenheiro.
CompetiçãoEle estima que, a longo prazo, hajam competidores da Copersucar no mercado de produção de plásticos biodegradáveis. Hoje, no entanto, a empresa é a única. O PHB foi produzido em conjunto com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).
O novo polímero será vendido internamente também. De acordo com Rossel, o interesse da indústria alemã processadora de plástico pelo PHB se deve ao fato do produto ser competitivo no país, onde a produção de plásticos biodegradáveis é baseada em amido ou em hidrocarbonetos. O custo é interessante do ponto de vista econômico. Para a fabricação de 1 kg são necessários 3 kg de açúcar. Além disso, o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, o que deixa a Copersucar em posição de vantagem em relação a empresas estrangeiras.
O quilo do plástico biodegradável é vendido por US$14 a US$16 no Exterior, enquanto o PHB sairá por US$8. Foram necessários seis anos de pesquisa para chegar ao PHB, cujos estudos começaram depois de assinatura de convênio entre a Copersucar e o IPT em 1992. O investimento foi de R$ 2,5 milhões, com a participação de ambos e do apoio financeiro do Programa Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT), do ministério da Ciência e Tecnologia.
Matéria-primaO PHB é obtido a partir do açúcar ou xarope invertido, cuja fermentação produz bactérias do gênero Alcalígenes. Essas bactérias são multiplicadas e depois se tornam o próprio agente de transformação do açúcar em plástico. Conforme Rossel, esse processo leva entre seis meses a dois anos, dependendo das condições de tratamento do material.
As vantagens de substituir o plástico comum pelo biodegradável não são apenas econômicas.





