SatisfaçãoOs produtores Akio Yamanaka, Sérgio Higashibara e Carlos Kamiguchi em área de aveia branca: satisfeitos com a técnicaA capacidade do plantio direto de recuperar a fertilidade do solo e conter a erosão pode mudar a realidade de um lugar. Um exemplo foi a transformação vivida em Mauá da Serra, a 110 km de Londrina. Caracterizado pela forte declividade e pelo solo misto, quase arenoso, o município foi grande produtor de batata até o início da década de 60, quando entrou em crise econômica.
A partir dos anos 70 a região começou a adotar o plantio direto como forma de salvar a agricultura local e conter o exôdo rural. A iniciativa deu tão certo que hoje Mauá - atualmente festejando o 40º aniversário de colonização nipo-brasileira - é modelo tecnológico e considerada uma das regiões precursoras do plantio direto no Estado. Lá, práticas como aração e gradagem foram praticamente abolidas do vocabulário dos produtores, que viram suas terras serem valorizadas novamente e médias de produtividade antes vistas como impossíveis serem atingidas.
Detalhe da palha resultante do plantio direto, que retém a umidade do solo e evita a evaporação excessiva
‘‘Dia desses, uma propriedade foi vendida por R$ 7.400,00 o alqueire. Já houve época em que a falta de perspectiva era tanta que as terras eram simplesmente abandonadas’’, afirma o produtor Sérgio Kasutoshi Higashibara. Ele se lembra bem da época em que a produtividade de 50 sacas de soja por hectare, conseguida em outras regiões, era o sonho dos produtores locais. Atualmente esta média é superada com facilidade, e o desafio, agora, é atingir as 82 sacas/ha (em torno de 200 sacas por alqueire).
Para isso, o plantio direto tem sido feito junto com a rotação de culturas, para evitar a infestação de pragas comuns ao sistema em que não há revolvimento de terra. No verão, o produtor que plantou soja no ano anterior entra com milho, e vice-versa.
Noites em brancoCândido Hideomi Uemura, um dos pioneiros do plantio direto no município, lembra-se bem das dificuldades dos primeiros anos. ‘‘Era um problema atrás do outro, principalmente no caso da soja, por falta de implementos e herbicidas (só tinha o Gramoxone, que atuava por dessecação e tinha que ser aplicado nas entrelinhas). Os equipamentos de aplicação eram cheios de falhas, e se não tomasse cuidado queimava a soja também’’, recorda. O primitivismo e lentidão dos implementos obrigava agricultores a passarem as noites aplicando herbicidas, em uma verdadeira luta contra o sono.
Um dos pioneiros do plantio direto em Mauá, Cândido Uemura, diante da velha semeadeira Rotacaster
Com a ajuda dos velhos cadernos de anotação, Uemura conta que fez o primeiro plantio, com uma semeadeira Rotacaster produzida pela Fábrica Nacional de Implementos (FNI), no dia 24 de maio de 74. ‘‘Foi um ano difícil. Primeiro teve uma seca, e logo em seguida muita chuva, atrapalhando todo o preparo de solo. Nesta época meu irmão conheceu o produtor Herbert Bartz, de Rolândia, que já estava fazendo plantio direto, e ficou animado com a idéia’’. Antes disso Cândido já havia lido em uma revista sobre o uso da tecnologia na Inglaterra.
A principal vantagem do sistema para a região, na opinião de Uemura, é o controle da erosão. Para ele, ‘‘o plantio direto foi a salvação de Mauᒒ. E se diz ainda mais satisfeito porque os filhos saíram para estudar Agronomia e voltaram para trabalhar nas propriedades da família. Um deles está na Bahia, onde a técnica está começando a ser introduzida. Os irmãos Uemura plantam 1.450 hectares de soja, milho e aveia branca, conforme a época no ano.
Ganhando tempoTambém baseada no exemplo de Rolândia, a família Yamanaka resolveu investir na técnica do plantio direto no início dos anos 70, e hoje nem pensa em voltar ao sistema convencional. Das dificuldades do início, ele não esquece de tudo que enfrentavam para controlar o mato na lavoura. Como a aplicação de herbicidas nas entrelinhas era falha, as invasoras que nasciam próximas aos pés de soja ou milho permaneciam, e aí, só contratando bóias-frias para complementar o trabalho.
Área semeada recentemente com aveia no município, sobre restos das culturas de milho e soja
‘‘Mas de qualquer jeito, o trabalho na época não era fácil’’, resume o produtor Akio Yamanaka, que junto com mais dois irmãos planta 750 hectares de soja ou milho no verão e aveia branca no inverno. Yamanaka ressalta que logo nos primeiros anos de adoção do plantio direto pôde sentir a melhora na produtividade. Além disso, ficou mais tranquilo para plantar depois das chuvas, já que a palha conserva a umidade do solo e reduz a evaporação.
Como o plantio direto elimina uma série de práticas de preparo do solo, como aração e gradagem, necessárias ao plantio convencional, o agricultor acaba ganhando tempo e não dependendo tanto dos fatores climáticos. ‘‘Antigamente, muitas vezes a gente chegava até na véspera de Natal plantando soja’’, recorda Yamanaka.
De uma maneira geral, os produtores de Mauá da Serra não sabem dizer se o custo de produção, no caso do plantio direto, é menor que no plantio convencional. ‘‘A gente não tem mais noção de quanto estaríamos gastando no outro sistema’’, justificam.
O agrônomo e produtor Carlos Tsuyoshi Kamiguchi observa que os implementos usados no plantio direto são mais caros, mas por outro lado a frota de equipamentos pode ser menor e o consumo de combustível fica reduzido em mais ou menos 40%. ‘‘No final das contas, o custo por área deve empatar, mas os benefícios para o solo, no caso do plantio direto, são indiscutíveis’’, afirma Kamiguchi.

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