Plantio direto exige calagem diferente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de junho de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
Produtores adeptos do plantio direto devem tomar alguns cuidados na preparação da solo para a semeadura da próxima safra de verão. Como o sistema é baseado no não revolvimento da terra, a correção da acidez, através da calagem, precisa ser feita sem a utilização do arado e da grade, comuns entre os agricultores que praticam a agricultura convencional.
A calagem consiste na incorporação do calcário (rocha moída) e seus nutrientes para elevar o nível do pH do solo.No plantio direto, os insumos chegam às camadas mais profundas através da liberação de ácidos orgânicos, explicou o engenheiro agrônomo Antônio Costa, do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Para obter bons resultados, é fundamental viabilizar todas as etapas do sistema, fornecendo palha em quantidade suficiente para formação de matéria orgânica.
De acordo com o pesquisador, a calagem deve ser feita três meses antes do início do plantio, tanto no verão como no inverno, pois o calcário precisa de chuva para reagir. Ele acrescentou que a prática tem efeito mínimo de três anos. Após esse período, o produtor deve fazer uma análise do solo e, dependendo dos resultados obtidos, realizar uma nova aplicação. As doses recomendadas variam de acordo com as condições da terra e por isso, é fundamental recorrer à análise de solo para conhecer as necessidades.
A atividade é trabalhosa, mas garante muitas vantagens. Além de evitar a erosão, reduzindo a poluição dos rios por dejetos da agricultura, o plantio direto diminui a queima de matéria orgânica, proporcionando um solo mais rico e capaz de manter estável o nível de produtividade da propriedade.
Práticas Diferentes Até dez anos atrás, o solo era preparado para receber a semeadura apenas pelo método chamado de convencional, que consiste em revolver a terra através da aração e depois uniformizá-la com o uso da grade. Nesse contexto, a prática da calagem exigia a utilização do arado para incorporar os nutrientes e da gradagem para permitir a penetração do calcário de forma profunda e homogênea.
Com a difusão do sistema de plantio direto, as técnicas para fazer a calagem precisaram ser modificadas. O método correto consiste em aplicar o calcário na superfície e viabilizar sua locomoção para as camadas mais profundas, através dos ácidos liberados pela decomposição da matéria orgânica resultante da palha.
Isso só é obtido se o sistema for adotado de forma adequada, com boa rotação de culturas, não revolvimento da terra e a adubação verde. Segundo Costa, a aveia é uma excelente opção para viabilizar a calagem, pois sua decomposição permite que o calcário se desloque para as camadas menos superficiais.
No plantio direto, a retirada de amostras do solo para definir as necessidades de insumos também se modificou. No sistema convencional, as provas são feitas a uma profundidade máxima de 20 centímetros, enquanto no plantio direto elas se reduziram para o máximo de 10 centímetros.
Mais EconômicoO plantio direto também diminui a quantidade de fertilizantes necessários para equilibrar o solo e garantir boa produtividade. De acordo com Costa, a utilização da cobertura de palha reduz as perdas de água por evaporação, facilitando a entrada dos nutrientes orgânicos, que só se disseminam em solução aquosa.
O pesquisador Ademir Calegari, também do Iapar, informou que o plantio direto pode proporcionar economia de 30% a 50% nos fertilizantes a base de fósforo, após alguns anos de prática correta do sistema. A utilização de leguminosas na adubação verde também pode diminuir em 30% a mais de 50% a necessidade de nitrogênio, principalmente na cultura de milho.
Calegari comentou ainda que o plantio direto tem proporcionado aumentos de rendimento da soja e do milho que podem variar de 10 até 25%, em anos normais, enquanto em anos com problemas climáticos os aumentos de rendimento em relação ao convencional pode alcançar até 40% ou mais.
EquilíbrioA matéria orgânica é preservada pelo não revolvimento do solo, evitando a queima intensa dessas substâncias, consideradas decisivas para obtenção de produtividade estável.
O planejamento prévio do que vai ser plantado é fundamental para manter o equilíbrio do sistema, que se baseia na rotação de culturas. Diante da necessidade de fornecer palha, Costa recomenda incluir o milho como cultura de verão, pois seus restos são eficientes para essa função.
No inverno, uma iniciativa válida é reservar uma área para a adubação verde, que deve ser definida de acordo com as necessidades do solo. O trigo, ele explicou, não produz muita palha, mas seus restos culturais são adequados e podem ficar na superfície.
O pesquisador afirmou que a orientação de técnicos especializados é importante para garantir a eficiência do sistema. A assistência técnica vai ajudar a planejar as culturas de verão e inverno, equilibrando a necessidade de tratamento do solo com a viabilidade econômica das lavouras escolhidas.
Aderindo ao SistemaAproximadamente oito milhões de hectares (ha) são cultivados no Paraná durante a safra de verão. Desse universo, três milhões de ha utilizam o sistema de plantio direto. De acordo com Antônio Costa, muitos produtores não aderem ao sistema porque temem as mudanças inerentes à decisão. O plantio direto exige a transição de uma prática já dominada para outra que o agricultor não conhece totalmente, disse.
Para viabilizar a mudança de sistema, é necessário que o solo esteja corrigido e com nível de fertilidade adequado. Se a área estiver muito degradada, é interessante trabalhar com plantas que possuam grande quantidade de palha. Ele reafirmou que o milho é uma boa opção durante o verão. No inverno, é recomendável inserir a adubação verde, com preferência para gramíneas, cuja decomposição é mais lenta.O objetivo inicial deve ser aumentar a quantidade de palha no sistema, disse.
Para quem está pensando em mudar, o ideal é programar o plantio de milho em uma parte da propriedade para a próxima safra de verão, pois a cultura produz palha de boa qualidade. A implementação deve ser gradativa para não inviabilizar economicamente a produção. comentou. Ele acredita que a atual época do ano é tardia para iniciar a mudança.
De acordo com o pesquisador, o apoio da assistência técnica é imprescindível para aderir ao sistema pois, além de aprender a plantar de forma diferente, o agricultor vai precisar mudar as máquinas, o que exige investimentos.
É uma decisão drástica, pois implica na modificação de toda a prática anterior. O produtor precisa saber que não poderá mais revolver o solo, por isso, tem que planejar como vai fazer isso. Uma entrada mal planejada pode ocasionar a volta ao sistema convencional, comentou.
DificuldadesOutro problema enfrentado pelos produtores que praticam o plantio direto é o controle de ervas daninhas. Para evitar aborrecimentos, é fundamental saber trabalhar bem a palha que, deixada na superfície, impede o afloramento das invasoras. O pesquisador informou que o cultivo da palha depende também de boas condições climáticas, com quantidade suficiente de chuvas.
A compactação superficial da terra, propiciada pelo não revolvimento do solo, é outra reclamação recorrente entre os agricultores. A dificuldade pode ser minimizada pela rotação de culturas e pela utilização de plantas pivotantes na adubação verde, como o nabo.
O engenheiro agrônomo acrescentou que mesmo os agricultores que plantam pelo sistema convencional devem optar por técnicas que diminuam a necessidade de revolver o solo. Agindo assim ele vai evitar a queima de matéria orgânica, ensinou.


