Plantio direto e sustentabilidade
Plantio direto e sustentabilidade
Osmar Muzilli
A política econômica brasileira dos anos 60 e 70 promoveu uma acentuada expansão da agricultura mecanizada, pautada na dominância de processos mecânico-químicos de manejo do solo. Tal política constituiu um dos principais agentes indutores da erosão hídrica e da degradação da fertilidade química e biológica das terras agrícolas. Essa fase de modernização agrícola caracterizou-se também pelo uso indiscriminado de agroquímicos. Como efeitos colaterais, intensificaram-se os processos de assoreamento dos rios, a contaminação dos cursos dágua e os riscos de inundações em terras baixas, em detrimento da qualidade ambiental e da saúde da população.
O desconhecimento dos impactos das tecnologias de cultivo e sua compatibilidade com a natureza e atributos do solo promove um perigoso processo de degradação ambiental que compromete a qualidade de vida da geração atual e a sobrevivência das gerações futuras.
A sustentabilidade dos solos agrícolas exige a adoção de técnicas de uso e manejo capazes de protegê-los contra a erosão, e os cursos dágua contra os riscos de assoreamento e contaminação, além de assegurar a preservação da matéria orgânica e a ciclagem de seus próprios nutrientes. Faz-se necessária a substituição gradativa e complementar de processos mecânico-químicos por processos biológico-culturais capazes de minimizar os impactos da degradação ambiental e reduzir os custos de produção.
Para começar, é preciso adotar alguns princípios básicos na agricultura, como o aumento e a manutenção de cobertura vegetal (viva ou morta) sobre o terreno, para neutralizar os impactos das gotas de chuvas que desagregam os solos e favorecem as enxurradas. Outra prática necessária para promover o suprimento de matéria orgânica e a ciclagem de nutrientes no sistema solo-planta é o aproveitamento dos restos de culturas, combinadas com rotações diversificadas de culturas, uso de adubos verdes e integração lavoura-pecuária.
Nesse cenário, o plantio direto constitui uma das técnicas mais eficazes para minimizar os custos de degradação ambiental, principalmente aqueles decorrentes da erosão do solo e da poluição das águas. Favorece o controle biológico-cultural de plantas invasoras, pragas e doenças, a melhor organização do trabalho, um melhor uso do capital investido nas atividades agrícolas e a diminuição dos riscos por adversidades climáticas.
Enquanto esse sistema não é adotado universalmente, o uso indiscriminado da mecanização, a falta de conscientização acerca da necessidade de preservar a matéria orgânica e de conter o uso indiscriminado de agroquímicos, coloca em risco a agricultura até mesmo em regiões de solos outrora produtivos e de boa fertilidade.
Esse quadro desfavorável pode ser revertido. Uma boa oportunidade de conhecer alternativas como o sistema de plantio direto estará no Simpósio de Toxicologia Agricultura e Preservação da Qualidade da Água, do qual participarão cientistas e representantes dos órgãos mais importantes do setor, do Brasil e até do Exterior.
Nele terei maiores condições e espaço para mostrar que o plantio direto oferece menos custos e mais benefícios: diminui a demanda e a penosidade do trabalho, com redução nos gastos com energia e aumento da vida útil de equipamentos e maquinaria; economiza tempo, com a maior flexibilidade nas épocas de semeadura e, principalmente, reduz o uso de agroquímicos.
A produtividade via gestão ecológica traz importantes resultados como o controle da erosão, manutenção e aumento da fertilidade do solo, entre outros. Por isso não apenas os agricultores e estudiosos devem debater essa possibilidade: está em jogo uma opção que vai modificar, de forma positiva, as perspectivas futuras relativas ao solo, à água, à saúde e alimentação do futuro.
O sistema de plantio direto, numa estratégia holística de uso dos recursos naturais e microbacias hidrográficas, é fundamental para promover a agricultura sustentável em regiões brasileiras.
O autor é engenheiro-agronômo, especializado em pesquisa orientada a sistemas de produção; atua na Diretoria Técnico-Científica do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar).





