Plantio direto e papo reto
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sexta-feira, 20 de julho de 2018
Victor Lopes<br>Reportagem local 

A revolução do agronegócio paranaense e o boom da produtividade das commodities no Estado associado à agricultura conservacionista está intimamente ligada à transformação que o Sistema de Plantio Direto (SPD) fez nas terras do Estado. História mais do que conhecida do produtor pioneiro da técnica, Herbert Bartz, de Rolândia, que saiu pelo mundo já na década de 1970 em busca de tecnologias que solucionassem problemas ocasionados pelo sistema convencional de plantio, gerador de uma degradação absurda do solo.
Aos poucos, o plantio direto se tornou "lei" aos produtores em todo o mundo. Impossível pensar numa safra de grãos sem o sistema. Se no ano 2000, no Paraná, 66% da área destinada às culturas de verão (soja, milho e feijão) utilizavam o SPD, em 2014 já ultrapassava a casa dos 91%, segundo levantamento do Instituto Emater. Mas será que apenas os grãos podem se beneficiar dessa técnica que preserva o solo, economiza a água e ainda minimiza os efeitos das mudanças climáticas?
Estudos de entidades de pesquisa pelo País apontam que as hortaliças também podem entrar nessa onda conservacionista. O Sistema de Plantio Direto em Hortaliças (SPDH) já tem resultados interessantes, principalmente em Santa Catarina e região do Cerrado no Planalto Central. Aos poucos, começa aparecer no Paraná, pontualmente, um "trabalho de formiguinha" que deve ganhar força na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) nos próximos meses, com os primeiros treinamentos de extensionistas da Emater (leia mais nesta edição).
Se a horticultura responde por 800 mil hectares no País, é preciso salientar que são cultivadas em sistema intensivo de uso de insumos agrícolas e de revolvimento de solo, com ciclos muito curtos e frenéticos. Isso gera um intenso desgaste do solo, o que consequentemente aumenta as emissões e outros problemas graves como processos erosivos. Isso precisa mudar e o plantio direto é arma mais do que eficiente.

CERRADO
O engenheiro ambiental e pesquisador da Embrapa Hortaliças (DF), Carlos Eduardo Pacheco Lima, desenvolve pesquisas sobre mitigação e adaptação dos sistemas produtivos de hortaliças às mudanças climáticas. Ele relata que experiências no Cerrado atingiram resultados de produtividade igual ou superior ao sistema convencional em diversas culturas, entre elas brócolis, repolho, abóbora, tomate de mesa, tomate indústria e cebola. "Realizamos também um trabalho de melão em plantio direto em estufa e conseguimos um aumento (de produção) em 40%", ressalta.
Mais do que a produtividade, os benefícios trazidos ao sistema com o SPDH são bem similares aos grãos: melhoria da fertilidade do solo e das condições microclimáticas de cultivo (controle de temperatura dependendo da região), redução dos problemas de erosão, aumento da penetração da água, diminuição de mão de obra e insumos, entre tantos outros. Mas, para isso, é preciso superar barreiras. "O primeiro ponto a ser abordado é a questão da falta de conhecimento da existência dessa tecnologia. Ainda há algumas lacunas de conhecimento e isso deixa muitas vezes o produtor e o extensionista distante de recomendar (a técnica em hortaliças)."
O segundo ponto é a dinâmica do sistema produtivo. No plantio direto é necessário uma planta de cobertura, que deverá ser intercalada ao ciclo de produção das hortaliças, que é muito rápido e, portanto, exige mudanças de manejo. "Ele vai ter que pensar que parte da área será dedicada à palhada e parte para as hortaliças. Tem que se pensar num redesenho do sistema produtivo."
Outro ponto importante que a pesquisa tem trabalhado é qual planta de cobertura utilizar para cada hortaliça. Informação que precisa estar perfeitamente clara para que o produtor saiba exatamente o que utilizar em cada caso. "Temos que sistematizar e trazer esse refinamento". "Nas hortaliças um grande gargalo é a aplicação de defensivos e fertilizantes. A tecnologia nos permite reduzir essa necessidade, (a palhada) evita o surgimento de plantas daninhas, e reduz a necessidade de mão de obra, já que a capina diminui."


