Um grupo de produtores rurais de Centenário do Sul (91 km ao norte de Londrina) está se preparando para colher a primeira safra de abacaxi do município, que é tradicional na produção de café e leite, além do algodão que é cultivado em pequena escala.
Formado por 17 agricultores, o grupo optou pela fruta após a publicação de reportagem na Folha Rural sobre trabalho realizado em Santa Isabel do Ivaí (92 km a oeste de Paranavaí), onde os produtores se uniram em sistema de condomínio para lidar com a cultura.
Inspirados na iniciativa dos colegas do Noroeste do Estado, o grupo de Centenário do Sul passou seis meses estudando o sistema de condomínio e a possibilidade de implantação do abacaxi no município. Os produtores também assistiram palestras e participaram de cursos sobre fruticultura, apoiados por técnicos da Emater e do Iapar. Só depois, aproveitando o programa de fruticultura da Secretaria Municipal de Agricultura, eles começaram a trabalhar com a cultura.
Primeira safraO plantio das mudas da primeira safra, com abacaxi da variedade Hawaii smuth km, foi feito no período de agosto e setembro do ano passado e exigiu investimento de R$ 30 mil, dos quais R$ 22 mil financiados pelo Banco do Brasil. ‘‘O financiamento só foi liberado pela superintendência do banco porque era um grupo de produtores que estava solicitando. Se fosse para iniciativa individual, jamais o banco iria liberar recursos para esta cultura’’, explica a secretária municipal de agricultura, agrônoma Fátima Teresa Prado de Medeiros, uma das responsáveis pelo projeto.
Cerca de 200 mil mudas foram compradas do condomínio de Santa Isabel do Ivaí e o frete foi subsidiado pela prefeitura. O investimento maior foi na aquisição de defensivos para o tratamento das mudas, trabalho que, por ser manual, exige contratação de mão-de-obra volante. Mas, para a agrônoma Fátima Medeiros e para os produtores do condomínio de Centenário do Sul, o fato da cultura exigir mão-de-obra é positivo, devido à geração de emprego no campo.
De acordo com o agrônomo da Emater de Centenário do Sul Sérgio de Souza Lopes, o clima quente e a terra mista do município são propícias para a produção do abacaxi. ‘‘Temos três tipos de solo: a terra roxa, o solo misto e o arenoso. A terra mista é rica, principalmente da bacia do Paranapanema, e ajuda no desenvolvimento do abacaxi.’’
DificuldadesMas, desde que compraram as mudas, que estão plantadas em área de seis hectares dentro da propriedade de um dos produtores do condominio, os agricultores enfrentam problemas. Logo após o plantio a seca prolongada por pouco não prejudicou as mudas.
As fortes geadas deste ano chegaram a afetar o desenvolvimento do fruto, que deverá ser colhido com peso entre 1,5 e 1,8 quilo, segundo avaliações feitas esta semana pelo agrônomo da Emater em Londrina Élcio Felix Rampazzo, especialista em fruticultura, e pesquisador do Iapar Sérgio Carneiro. Ambos orientam os produtores sobre a cultura.
Quanto às vantagens do sistema de condomínio, o grupo de Centenário do Sul destaca que, no caso deles, nem o arrendamento da terra os condôminos precisam pagar. A área de seis hectares pertence ao bancário aposentado Miguel Marques Netto, 52 anos, foi cedida para a exploração da cultura ‘‘Eu precisava renovar a pastagem. Por isso sugeri que se fizesse o plantio na minha propriedade. Assim eu tenho o retorno de uma adubação do solo, deixando-o descansar das pastagens’’, informa Netto, que também é o responsável pela contabilidade do grupo.
Apesar de ter nascido no meio rural, Netto nunca havia trabalhado na agricultura, mas resolveu fazer parte do condomínio. ‘‘Esta foi uma forma de eu entrar de cabeça na agricultura’’, ressalta. Ele também foi o responsável pela busca de informações sobre a cultura, através de contatos por rádio com produtores de outros estados, principalmente do norte de São Paulo, e com uma empresa de Minas Gerais.
‘‘Mesmo resistente a solos secos, o abacaxi necessita de água. Num dos últimos contatos soube que em Minas os agricultores tem sistema de irrigação. Para nós implantarmos isso, agora, fica muito caro. Mas vamos juntando estas informações para as próximas safras.’’
Expectativa O agricultor José Aparecido Cripa, 53 anos, está acreditando no abacaxi. Como não precisa ficar constantemente na plantação, ele pode dar atenção ao café e ao leite. ‘‘Esta é uma forma da gente tentar engordar um pouco mais o orçamento. Acredito que vamos tirar um lucro, mesmo que pequeno de início.’’
Cripa está esperançoso com a colheita em dezembro, mas a principal expectativa dele é com o replantio da cultura, logo em seguida. De cada muda plantada – o ciclo de produção do abacaxi é de cerca de 1,8 – o grupo tirará cerca de três mudas. ‘‘Estamos inclusive procurando uma área maior para fazer o plantio no próximo ano, porque na lavoura de abacaxi, por medida de segurança, a terra deve descansar pelo menos uma safra.’’ Além do descanso da terra, o rodízio de área serve para evitar a proliferação de doenças típicas do abacaxi.
Já para os próximos anos, a expectativa do grupo é de investir na produção de derivados, através da agroindústria. Cripa espera, em breve, ver funcionando uma pequena fábrica de beneficiamento do abacaxi, para abastecer, conforme o grupo pretende, as regiões de Londrina e Maringá.