Plantas transgênicas e o ambiente
A avaliação e o estabelecimento de métodos para o estudo de organismos geneticamente modificados (OGM) são de grande importância, uma vez que as ações voltadas para a segurança ambiental devem procurar promover a preservação da biodiversidade, a manutenção dos ecossistemas e os respectivos padrões de sustentabilidade requeridos. Alguns dos possíveis efeitos adversos produzidos por um OGM são os danos diretos e indiretos sobre organismos benéficos não-alvos da comunidade local de importância econômica, ecológica e/ou social; até a saúde humana, seja diretamente por meio da ingestão de alimentos, alteração de infectividade e patogenicidade de microrganismos engenheirados, ou indiretamente por alterações ambientais e da cadeia alimentar através de um desbalanço nas populações de um determinado ecossistema.
Existe a possibilidade da transferência não intencional de informações genéticas entre organismos. Os microrganismos originalmente não patogênicos, poderiam se tornar patogênicos, ou ter sua amplitude de hospedeiros aumentada. Espécies diferentes de plantas, que tenham compatibilidade de cruzamento, poderiam gerar uma nova planta daninha. No caso das plantas resistentes a um herbicida, estas poderiam ainda se tornar pragas por resistência quando este é utilizado repetidamente.
Nas cultivares que expressam toxina do Baccilus thurigiensis os insetos rapidamente criariam resistência e a toxina gerada poderia ser incorporada ao meio ambiente, afetando solo e ecossistema aquático, uma vez que a atividade inseticida da toxina pode persistir por 40 dias ou mais. Apesar da importância do estudo do impacto dos OGM sobre os organismos não-alvos, não se pode predizer com exatidão o comportamento destes organismos no campo devido à complexidade de suas relações com o ambiente e as pressões seletivas do ambiente muitas vezes só podem ser determinadas em áreas de produção em larga escala.
Portanto, o risco potencial à saúde pública e ambiental a partir de uma liberação de OGM, seja intencional ou acidental, é objeto de múltiplas avaliações. Devem ser respondidas questões quanto à sobrevivência, disseminação, colonização e função da liberação desses organismos em habitats naturais; bem como os aspectos socioeconômicos e os problemas advindos da ausência de barreiras políticas ou fronteiras que restrinjam a disseminação do organismo.
Quanto à harmonização de protocolos experimentais que quantifiquem o risco ambiental, ao menos na Comunidade Européia, não há concordância quanto à melhor forma de como medí-lo. Propõe, contudo, que esta adote o princípio da avaliação em diferentes fases, que entretanto ainda não estão bem estabelecidas. A avaliação de cada planta deve ser estabelecida caso a caso, monitorando as preocupações quanto à biossegurança ambiental específica, sendo que o propósito e função do novo gene incorporado deve ser levado em consideração no desenho do novo estudo. Na avaliação de risco ambiental de novas práticas agrícolas deve-se também levar em consideração a saúde ambiental uma vez que o ecossistema tem valor intrínseco e cada um de nós é responsável por manter sua sustentabilidade. Assim, uma melhor compreensão da interação entre organismos transgênicos e ecossistemas torna-se necessária por parte da população e dos órgãos regulamentadores, para assegurar decisões que tenham eco na comunidade no que tange ao ambiente.
A autora é médica veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da Universidade de São Paulo (USP), mestre em Fisiologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e doutora em Patologia Experimental e Comparada - Toxicologia pela FMVZ, em 1991. Pesquisadora do laboratório de Ecotoxicologia da Embrapa Meio Ambiente desde 1990 e professora colaboradora do curso de pós-graduação em Patologia Experimental e Comparada da FMVZ, desde 1992.





