Não é por acaso que Folha Rural inicia hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente, uma discussão sistemática do tema plantas transgênicas. A Natureza levou milhões de anos entre a criação e desenvolvimento dos seres vivos. No final do Século XX, fazem-se coisas que até há pouco tempo seriam consideradas ‘‘milagres’’: com a biotecnologia, a engenharia genética - na Inglaterra, a ovelha Dolly gera mediante clonagem uma ovelhinha, cujas células nascem envelhecidas -; em Curitiba a Embrapa Florestas usa também clonagem para multiplicar araucárias e assim, quem sabe, salvar uma amostragem sadia e pura dos pinheiros que um dia cobriram a maior parte do Estado do Paraná e grandes extensões de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Essas ações todas geram impacto no ambiente, assim como plantas, insetos e outros animais trazidos de outras regiões do mundo para controlarem alguma espécie de praga ou doença no Brasil. Ou, como o zebu indiano e o gado holandês do Canadá, melhorar a pecuária brasileira. Impactos positivos no ambiente.
A disseminação da biotecnologia e do seu instrumento é consequência da globalização da economia. Esta tem um impacto ambiental importante na produção de sementes nacionais, que são substituídas por novas cultivares. Entre estas, as espécies modificadas geneticamente; as transgênicas, que dariam a empresas multinacionais o domínio do mercado brasileiro. Desta face do negócio - o impacto das cultivares transgênicas no mercado de sementes - trataremos em outra oportunidade.
Hoje, destacam-se as preocupações ecológicas, com o desaparecimento - e não por responsabilidade da manipulação genética artificial, mas também por ela, ainda em menos escala - de variedades e espécies locais que muitos agricultores usam como sementes tiradas de suas próprias colheitas de grãos para fins comerciais. Como já aconteceu com raças de suínos, equinos e bovinos, a diversidade de plantas mais resistentes a situações de clima, solo e água, por serem adaptadas ao seu meio, está diminuindo e se prevê que a manipulação genética deixará baixa possibilidade de escolha ao agricultor.
Além de se pretender resguardar a base genética do País, aqueles que recomendam cautela pedem maior prazo de observação científica, antes da liberação das plantas transgênicas no Brasil, e se preocupam com o risco da novidade para o meio ambiente e para a saúde humana e animal.
Não existe unanimidade, sequer nos meios científicos oficiais: enquanto alguns cientistas recomendam mais tempo de pesquisa nacional, outros acham que experimentos feitos em outros países (Estados Unidos, principalmente) bastam para garantir aos brasileiros a segurança e a economia que a nova tecnologia proporcionaria.
‘‘Além disso, as plantas transgênicas até agora comercializadas (no Exterior) não acrescem nenhum v alor alimentar, nem têm maior produtividade em biomassa em relação às normais’’, observa a Sociedade Brasileira para o Progresso das Ciência, no editorial que introduz a discussão sobre riscos e benefícios das plantas transgênicas. No debate conduzido pela SBPC pela Internet, destaca-se a preocupação dos participantes não em proibir a produção no Brasil de organismos geneticamente modificados, mas na regulamentação do uso desses organismos. A proibição impediria as instituições brasileiras de fazerem pesquisas nessa área, e assim o Brasil continuaria sem ter um conhecimento próprio a respeito, e ficaria na dependência do conhecimento manejado do Exterior.
O próprio presidente da SBPC, Sérgio Henrique Ferreira, em carta ao ministro da Ciência e da Tecnologia, Luiz Carlos Bresser Pereira, em 14 de abril/99, deixou clara a posição da comunidade científica brasileira, ao afirmar: ‘‘A SBPC não é contra, em princípio, à introdução, no Brasil, de alimentos transgênicos. É preciso, porém, que essa introdução represente um avanço no sistema alimentar da população e que a utilização desses alimentos não se restrinja ao uso cativo de produtos industriais monopolizados...A SBPC propõe, finalmente, que a liberação comercial dos organismos transgênicos somente seja autorizada, se for o caso, após a devida análise dos resultados dos ensaios realizados.’’
Há cerca de um quarto de século começaram as discussões a respeito de uma nova maravilha da ciência: a transferência do gene de um ser vivo, com características desejadas, para outro, mesmo de espécie diferente. Nascia, para a comunidade mundial, a transgênese, mas as primeiras plantas transgênicas foram de fumo, desenvolvidas somente em 1983, para resistir ao antibiótico canamicina. Hoje, a maior atenção concentra-se na soja, que adquiriu resistência a um herbicida. Mas, a transgênese ‘‘mexeu’’ com outros produtos como algodão, milho, feijão, arroz, tomate e algumas hortaliças.
É uma tecnologia de ampla aplicação, e seu uso vem sendo debatido no Brasil e no mundo. Tanto que no Congresso Brasileiro de Soja e no Seminário Internacional de Biotecnologia Cafeeira, realizados no mês passado em Londrina, a transgênese foi colocada em discussão. Pesquisadores de órgãos oficiais, de empresas privadas e cientistas independentes debateram a questão: transgênese é uma tecnologia perigosa? Deve ser liberada logo, ou passar por um período longo de observação científica, para se conhecer o comportamento dessa técnica em vários experimentos no Brasil, antes de ser colocada à disposição do mercado? Não se chegou a um consenso. A Europa e Japão ainda têm restrições aos alimentos transgênicos, enquanto os Estados Unidos, Argentina e Canadá os utilizam.
Em vista dessa polêmica; das vantagens e riscos que a transgenia pode conter, cientistas e outros estudiosos querem mais tempo; um estudo mais prolongado da questão. Como faz nesta edição da Folha Rural o ex-senador, ex-ministro da Agricultura, e ex-ministro da Indústria e Comércio, José Eduardo Andrade Vieira, que recomenda cautela quando se aborda um tema que pode ter implicações, ainda não previstas, na vida (ambiente) humana, além das vidas animal e vegetal.
Ampliando a discussão, Folha Rural - que vem há anos tratando do assunto - abre suas páginas ao debate, travado por cientistas em várias oportunidades, inclusive na Internet. Pesquisadores, indústrias de insumos, produtores rurais, enfim todos os que se interessam pelo assunto, podem participar do debate. Basta identificar-se e encaminhar seu texto, via Internet, a qualquer hora, para o endereço [email protected],, por fax (043/339-1412) ou por telefone (034) 374-2131, 374-2118 ou 374-2125, das 7 às 12 horas. As posições podem ainda ser encaminhadas através da Internet, em que recebemos contribuições através do debate aberto no site da Folha de Londrina/Folha do Paraná:www.folhaweb.com.br

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