Desde que foi criada, em 1965 pelo Código Florestal Brasileiro, a legislação da reserva legal incomoda muitos donos de lotes rurais. Manter na propriedade pelo menos 20% da área total em florestas e demais formas de vegetação, mesmo em várias parcelas como permite a legislação, é vista como área perdida na soma total da capacidade produtividade da propriedade.
Mas há quem consiga tirar proveito dessa legislação já que ela permite o uso dessa reserva através de técnicas de manejo que garantam a sua perpetuidade. Um exemplo disso, é o trabalho que vem sendo realizado desde 1984 pela Klabin, indústria de produtos florestais, em Telêmaco Borba (128 km ao norte de Ponta Grossa). Segundo a farmacêutica industrial e bioquímica Loana Johansson, gerente operacional da área de produtos não madeireiros, a empresa é hoje modelo no desenvolvimento de produtos fitoterápicos e cosméticos.
A Klabin, de acordo com Loana, investiu no levantamento das essências da floresta como forma de realizar o manejo da floresta nativa agregando valores que permitissem outros lucros, como o social, ecológico e ambiental. Nesse trabalho foi priorizada a melhoria da qualidade de vida do funcionário e de suas famílias, com o uso múltiplo e racional da floresta nativa presente em mais de 85 mil hectares dos 230 mil que compõem a fazenda da Klabin naquela região. Essa área, de acordo com a gerente operacional, corresponde ao dobro da reserva de preservação determinada pela legislação.
Medicamentos A empresa montou uma farmácia de manipulação responsável pela produção de 61 produtos (30 medicamentos e 31 cosméticos) a partir de plantas retiradas dessas áreas de preservação cujo efeito terapêutico e eficácia já são conhecidos e comprovados na prevenção e tratamento de 5 doenças. A produção mensal é de 15 mil unidades. Para gripes e resfriados usa-se o eucalipto, o principal produto da empresa; ferimentos e lesões na pele podem ser tratados com o barbatimão e a calêndula; diarréias e desinterias usam produtos feitos com a goiabeira; plantas amargas, como o féu-da-terra, alcachofra, carqueja, tratam a dispepsia e para hipertensão leve a recomendação é produtos à base de alho e chuchu.
Esses males, segundo levantamento da empresa, são os de maior incidência na comunidade Klabin. ''Estamos tratando nossos funcionários com melhor performance e menor custo'', destaca a farmacêutica explicando que ''a ação é muito mais preventiva que curativa''. Loana destaca ainda que, se comparada aos produtos sintéticos, a linha terapêutica (fitoterápicos) da farmácia da Klabin tem apresentado em torno de 95% de eficiência a um custo quatro vezes menor e um índice de 97% de aceitação. Em 2002, informa a gerente operacional, a fitoterapia esteve presente em até 70% de uma média de 40 mil atendimentos gerais de saúde, beneficiando cerca de 15 mil pessoas.
Algumas dessas plantas, informa Loana, agem ainda como indicadores de qualidade de um bom manejo florestal e de manutenção da cadeia alimentar, como a carqueja e o maracujá o desenvolvimento dessas duas espécies é sinal de uma floresta saudável. Desde 2000, a empresa criou o projeto Monte Alegre que leva o mesmo nome da fazenda para estudar melhor a estrutura da floresta e agregar mais valor às ações de prospecção, industrialização e comercialização da biodiversidade. A operacionalização da atividade, segundo a farmacêutica, já resultou na avaliação potencial de 240 espécies diferentes.
A conservação e o uso sustentável da biodiversidade praticados pela Klabin já são reconhecidos internacionalmente. O projeto foi o primeiro empreendimento do mundo a receber a certificação emitida, em 1998, pelo Forest Stewardship Council (FSC), em manejo de plantas medicinais e cadeia de custódia de fitoterápicos e fitocosméticos. ''O selo atesta que a floresta pode ser utilizada sem a perda de seus objetivos básicos, gerando benefícios sociais, ecológicos e financeiros pelo investimento no homem e no meio ambiente'', resume Loana Johansson. Continua na página 8

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