Após a série apresentada pelo dr. Dráuzio Varella no programa ''Fantástico'', algumas semanas atrás, recebi e-mails e conversei com diversas pessoas, questionando o que foi apresentado.
Antes sequer do primeiro programa, alguns grupos já preparavam uma ''resposta à altura'', ao que iria ser dito, sem mesmo saber o quê seria dito.
Concluída a série, vamos à análise:
Sempre começo meus seminários e aulas, esclarescendo sobre os riscos da auto-medicação, do uso indiscriminado e ''milagroso'' das plantas (muitas vezes por pessoas não capacitadas para tal), do uso equivocado em doenças graves, etc.
Classificamos a fitoterapia no grupo das terapêuticas complementares, e não alternativas, como antigamente, deixando bem claro, que os fitoterápicos e as plantas medicinais são parte de tratamentos de saúde, que envolve um diagnóstico adequado, por um profissional capacitado para tal, e que deve dominar o conhecimento técnico sobre o uso de tais produtos, como dose, efeito terapêutico, efeitos colaterais, interações medicamentosas, contra-indicações, etc.
É isso que fazemos em Londrina desde 2003, e o que venho apresentando nesta coluna há vários anos (até agora já publicamos 183 artigos).
As terapêuticas complementares (além da fito, consideramos complementares também a homeopatia e medicina tradicional chinesa), preenchem um espaço deixado pela alopatia, podendo ser imprescindíveis em diversas situações.
Vejamos algumas questões específicas da reportagem:
- Tratamentos indicados por agrônomos, farmacêuticos, biólogos, ''terapeutas'' e outros: estes, realmente não são profissionais capacitados para diagnósticos e nem para a escolha da melhor opção terapêutica para cada caso. o exercício da medicina por profissional não capacitado para tal É considerado charlatanismo.
Infelizmente, qualquer um pode escrever e publicar suas opiniões pessoais, independentemente de ter ou não um embasamento científico. daí a importância de procurarmos livros, revistas e sites que apresentem referências bibliográficas confiáveis, do ponto de vista científico, evitando aqueles com intuito comercial.
- Atraso no diagnóstico ou no tratamento: dentro da medicina alopática, temos tratamentos reconhecidos para a maioria das doenças, e que não podem ser postergados em nenhuma hipótese. É claro, que tudo vem precedido de um diagnóstico adequado, que só pode ser feito por um profissional capacitado para tal.
- Tratamento de câncer com babosa, graviola, aveloz, etc: em doenças graves como o câncer, os tratamentos complementares não são uma boa opção terapêutica, apesar da maioria dos quimioterápicos existentes até hoje, serem derivados de plantas medicinais.
Os quimioterápicos são verdadeiros destruidores de células, e infelizmente, não apenas de células tumorais, o que explica seus efeitos colaterais.
O medicamento utilizado pelo médico oncologista pode até ser complementado com algum fitoterápico, mas não temos nenhuma evidência da eficácia das plantas acima citadas.
As plantas que utilizamos em casos específicos, visam mais o conforto do paciente (combatendo os efeitos colaterais, melhorando a imunidade e a nutrição, etc).
- ''Só use se tiver bula'': na teoria isto pode até ser verdade. Mas para a maioria dos profissionais que atuam na atenção básica, com todas as suas limitações (como bem foi apresentado nos programas), o conhecimento popular e o uso de plantas medicinais para o tratamento de sintomas e/ou de doenças de menor gravidade (devidamente diagnosticadas) É uma realidade e não poderá de forma alguma ser desprezado.
O que chamamos de etnofarmacologia (conhecimento popular) é o ponto de partida para a identificação e o estudo da maioria dos fitoterápicos disponíveis no mercado.
- Estudos clínicos com fitoterápicos: ao contrÁrio do que foi apresentado pelo Dr. Dráuzio, temos muitos fitoterápicos bem estudados, com extratos padronizados com marcadores, efeitos terapêuticos e efeitos colaterais, interações medicamentosas, e diversos estudos clínicos no pubmed e em outros sites de busca. infelizmente, a maioria não são sobre plantas brasileiras, apesar de muitas delas estarem adaptadas e crescerem espontaneamente no brasil.
- Em síntese, concordei com muito do que foi dito, apesar de um academicismo que considerei excessivo.
O que falta em nosso país, é que a fitoterapia seja tratada com a seriedade que merece. Devemos padronizar o uso de plantas medicinais e fitoterápicos e capacitar os profissionais (cada um na sua área de atuação específica) para que conheçam e utilizem adequadamente mais este recurso terapêutico, que como disse o Dr. Dráuzio, é responsável por ''mais de 30% dos medicamentos alopáticos e 50% dos medicamentos utilizados em oncologia''.
A população já se utiliza de plantas medicinais e continuará utilizando, cabe portanto a nós, profissionais capacitados, otimizar este uso, definindo e divulgando o que é bom e o que é ruim, o que é certo e o que é errado, independente de paixões ou interesses pessoais e corporativos.

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