Planos tiram renda do produtor
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sábado, 25 de novembro de 2000
Célia Guerra De Londrina 
Os reflexos do planos econômicos aparecem com maior impacto na diminuição de renda do produtor e, consequentemente na sua capacidade de investir em tecnologia. Edison Mazei Ponti, presidente do Sindicato Rural de Londrina, explica que o Governo manteve os produtos agrícolas com baixos reajustes de preços e com a responsabilidade de puxar a inflação para baixo. Segundo Ponti, os produtos agrícolas tiveram um aumento de 5% enquanto outros produtos tiveram ajustes de 70% neste período.
ÂncoraA agricultura foi a âncora verde da inflação, diz Ponti. A abertura de mercado no Plano Real, com a supervalorização da moeda, foi o golpe principal, segundo ele, pois permitiu a entrada de produtos estrangeiros subsidiados com preços bem abaixo dos nacionais.
Mauro Eduardo Del Grossi, pesquisador da área de sócio-economia do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) comenta que são duas as forças responsáveis pela crise agrícola: a situação conjuntural, criada pela política econômica do País; e a estrutural, trazida pela modernização da agricultura.
A atividade agrícola é hoje uma das piores fontes de renda. Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados pela Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD), em 1999, o rendimento médio entre as pessoas que moram em áreas rurais é o seguinte: para o assalariado a renda é de R$164,46; os que atuam por conta própria (agricultura familiar) recebem R$185,76. Já para os empregadores o rendimento é de R$817,04.
Custo BrasilO presidente do Sindicato Rural de Londrina critica a ação do Governo em estar divulgando safras recordes, com números sempre acima da média máxima. Esses anúncios, para ele, tendem a baixar ainda mais os preços dos grãos. Outro fator a considerar é que na soma do custo dos produtos brasileiros o que mais encarece são as despesas adquiridas da porteira para fora, o chamado custo Brasil (transporte, a qualidade das estradas, impostos, juros altos, armazenamento) e que passam despercebidas nas contas do Governo e dos produtores.O custo da soja brasileira, do plantio à colheita, é inferior ao produto americano.
EndividamentoA dívida do produtor rural, segundo a assessoria de imprensa da Superintendência do Banco do Brasil no Paraná, está praticamente controlada. A inadimplência é de 0,35%. A securitização e o programa especial de saneamento de ativos (Pesa) beneficiaram quem tinha contas a pagar. Das dívidas securitizadas, o índice de inadimplentes é de 5,53%, considerado o melhor do País. As execuções que acontecem, segundo a assessoria, são de problemas anteriores aos programas.
A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP) concorda com este equilíbrio na dívida rural. Este ano as perdas provocadas pelas geadas, impediram o produtor de quitar seus débitos. Mas, afirmam que os bancos trabalham com propostas de prorrogação dos vencimentos.
Já o representante do escritório da Emater em São João do Ivaí, Vagner Antônio Mazeto, não considera tão benéfica a securitização, pois os valores da dívida já estavam altos. Ele lembra que no ano passado, no período de vencimento da parcela da renegociação, houve um movimento dos agricultores, liderados pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que obteve uma redução de 30% no valor. Vagner destaca que a dívida associada aos baixos preços dos produtos provocaram um descrédito entre os pequenos produtores. Tivemos um grande número de famílias que migraram para a cidade.
SoluçõesMauro Grossi, do Iapar, ressalta que a agricultura está em crise, mas não é o fim:é preciso uma decisão política, para o problema. Ponti completa, lembrando que o Governo brasileiro ainda não reconhece o potencial da agricultura, uma das únicas atividades superavitárias no País.
Grossi diz que é necessária um política agrícola de recuperação de preços e de acesso à tecnologia para os pequenos produtores. Isso seria possível se dirigido a grupos organizados de agricultores. Outra sugestão é a criação de um programa de financimento à moradia rural, estimulando a permanência do homem no campo. Ele cita ainda as novas atividades, dirigidas aos pequenos produtores como agricultura orgânica ou as atividades não agrícolas do campo, como os pesque-pague, turismo rural. Mas é preciso que o Governo estabeleça uma linha explícita de apoio ao lazer rural. Ele lembra ainda que há linhas de financimento que oferecem condições ao produtor como o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), apesar de considerá-lo muito limitado. Ele destaca o programa oferecido pelo Governo do Estado Fábrica do Agricultor, de financimento à transformação dos produtos agrícolas.
Ponti já apresenta duas propostas: a instituição da Cédula do Produtor Rural Fiscal, onde o produtor faz a venda antecipada do produto, mas ao invés de entregar em produto, paga em dinheiro com um pequeno ágio. A proposta é que o Governo equalize o juro de 0,8% ao mês de toda a CPR Financeira, utilizada pelo produtor. Mas que toda a negociação seja feita por leilão, que considera um meio eficaz e transparente de negociação.
Outra proposta seria um prêmio de estímulo à produção parecida com o target price, do governo americano. Por ele o Governo daria uma garantia de preço ao produtor e se não atingisse o valor, ele repassaria a diferença. Ele explica que é um processo diferente do preço mínimo, e que daria condições ao produtor de pagar o custo Brasil.


