Planejamento para o ano todo
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sábado, 29 de dezembro de 2001
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Ao fazer o planejamento da safra de soja, o produtor não deve considerar apenas as necessidades de investimentos em insumos, sementes e mão-de-obra. De acordo com o economista Heveraldo Camargo Mello, da Embrapa Soja, também é preciso observar os custos fixos. Isso inclui a depreciação das máquinas, cuja reserva possibilitará a recomposição futura desses equipamentos, e o treinamento da mão-de-obra, que auxiliará na eliminação de desperdícios.
Também é importante analisar fatores que influenciaram diretamente o desenvolvimento da lavoura na safra passada para proceder as correções, como é o caso das manchas de fertilidade e a consequente redução de produtividade. ''A preocupação com essas variáveis tem que ser constante, e não apenas antes do período de semeadura'', adverte.
Dinheiro
Outro cuidado necessário durante todo o ano é o controle de fluxo de dinheiro. Isso possibilita ao agricultor prever o destino de seus recursos e analisar como investir a diferença entre a receita e os gastos. ''Ao saber com detalhes onde está aplicando seu dinheiro, o produtor pode planejar melhor o seu uso e reservar mais recursos para melhorar setores que realmente precisam de investimentos'', comentou.
Para tornar o planejamento eficiente, uma dica importante é estabelecer objetivos. O pesquisador orienta a estimar a receita que estará disponível no final do ano e, com base nesse valor, considerar quais serão seus custos de produção e suas despesas pessoais (roupas, festas, colégio dos filhos, contribuições para clubes, igreja e outros gastos). Se os recursos estimados não forem suficientes para satisfazer suas necessidades, ele deve começar a pensar em mudanças, que podem ser desde a redução de gastos até a busca de novas alternativas econômicas.
Heveraldo lembra que as principais perdas na atividade agrícola localizam-se em detalhes como mão-de-obra mal treinada, desperdício de insumos, máquinas mal-reguladas, falta de controle das atividades e dos resultados e falhas na comercialização. ''Com o planejamento em mãos, é possível reduzir as perdas e melhorar o desempenho da propriedade. Na agricultura, o principal insumo não é o defensivo ou o adubo, mas a informação'', disse.
Custos com tecnologia
A garantia de boa produtividade depende da utilização de tecnologias adequadas, que permitam o desenvolvimento da soja mesmo em regiões consideradas marginais. O Brasil tem uma variedade de cultivares e técnicas que garantem uma das maiores produtividades do mundo. O problema, ressaltou o pesquisador, são os custos de aplicação da tecnologia.
Em regiões que necessitam de muitos investimentos para se tornarem produtivas, os custos acabam sendo maiores e às vezes podem até inviabilizar a produção. ''Por isso, antes de definir a tecnologia a ser utilizada, é importante analisar as possibilidades de receita'', defende.
Uma pesquisa realizada pela Embrapa Soja, em fase de análise e de ajustes, detectou as variações do custo de produção em 17 regiões brasileiras. Heveraldo explicou que os valores são referenciais e foram mensurados com base na tecnologia disponível e em uso pelo produtor. ''Não significa que todas as técnicas tenham sido utilizadas. Às vezes, os problemas e as necessidades de uso de insumos e de operações são diferentes por propriedades ou talhões '', comentou.
Comparações
Os resultados, baseados em dados coletados em junho, apontam variações surpreendentes. Em Cascavel, o custo de produção é de R$ 586/hectare (ha), sendo que 22% dos gastos são com herbicidas e 18% com fertilizantes. A produtividade média é de 55 sacas/ha e a margem é de 22,44 sacas/ha.
Já em Sorriso, no Mato Grosso, em uma primeira análise o custo sobe para R$ 808/ha, com 33% dos investimentos em fertilizantes e 20% em herbicidas. A produtividade é 53 sacas/ha e a margem é negativa, de menos 4,71 sc/ha. Em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, o custo é de R$ 618/ha, com investimentos principalmente em herbicidas (23%) e arrendamento de área (21%). A produtividade é de 40 sacas/ha e a margem, 3,65 sc/ha.
A explicação para essa diferença é que o levantamento não considera que a mesma tecnologia nem sempre é utilizada em toda a propriedade. ''Os ataques de pragas, as doenças e os problemas de fertilidade não acontecem em toda área. Esta margem também não é observada nas conversas com produtores da região''.
Em Cascavel são utilizados cerca de 250 quilos de adubo por hectare, enquanto em Sorriso, onde o solo apresenta uma fertilidade original menor, aplica-se uma média de 480 quilos/ha. Já em Santa Rosa, apenas 12% dos recursos são investidos em fertilizantes. ''Isso talvez explique a baixa produtividade'', comentou.
Os dados levantados indicam que as condições do Paraná parecem melhores que nos outros estados. Mello confirmou essa afirmação, ressaltando que o principal problema do Estado é a falta de escala, que impede a ampliação de áreas. No Cerrado, em contrapartida, há 80 milhões de ha disponíveis para cultivo. Entre os problemas da região que mais encarecem os custos estão as condições de fertilidade do solo, a distância dos centros de comercialização e a falta de estrutura, o que inclui vias de transporte adequadas para escoamento da safra. ''O desafio, agora, é vencer esses problemas'', revelou.


