Mário CésarSérgio Alves chama a atenção para a importância de investimentos de acordo com a realidade de cada produtorAonde eu e minha família vamos estar em 2005? Esta é uma das perguntas que o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná, Sérgio José Alves, tem feito aos produtores que vão assistir as suas palestras sobre rentabilidade na pecuária. O próximo slide, depois da pergunta, mostra a imagem de uma favela. Com isso, Alves explica que quer chamar a atenção dos pecuaristas para a importância de um planejamento na atividade, capaz de sustentar produção, rentabilidade e até mesmo sobrevivência em tempos de competitividade e globalização. Ele alerta que somente a adoção de tecnologia poderá torná-los competitivos.
O pesquisador falou sobre planejamento estratégico na pecuária de corte (como melhorar a rentabilidade em períodos de altos custos de produção) para pecuaristas do Norte do Paraná na última segunda-feira, dia 17, em Londrina. De acordo com Alves, o produtor deve saber investir e não desperdiçar dinheiro com modismos, mudança de objetivos e desvio de dinheiro para outras atividades.
Decisão gerencial‘‘O imediatismo do produtor rural e a falta de atenção na contratação de mão-de-obra especializada, são apenas dois dos itens que têm influenciado na baixa rentabilidade da pecuária, seja ela de corte ou de leite’’, afirma. Hoje, segundo ele, a maioria dos produtores rurais, com fácil acesso a informações através de revistas, programas especializados de televisão, entre outros, ainda não sabe selecionar as informações que seriam úteis para serem aplicadas na propriedade.
‘‘Falta planejamento de longo prazo e, muitas vezes, tenta-se buscar soluções simples para causas complexas, com a reforma de pastagens’’. Um exemplo, segundo o pesquisador, é a utilização de novos materiais forrageiros, ditos ‘‘milagrosos’’, com a tiffton. Na verdade, alerta, qualquer forrageira, quando não se põe adubo, número de animais adequados e não se tem manejo ou mão-de-obra especializada, não funciona.
Outro alerta é para que o pecuarista olhe mais para as instituições de pesquisa, porque é ali que são testadas tecnologias e produtos. Existem tecnologias, de acordo com o pesquisador, que permitem baixar os custos por litro de leite ou arroba produzida, tendo maior rentabilidade por área; mas que não estão sendo aplicadas adequadamente.
É essencial também, afirma Alves, que o produtor esteja atualizado sobre comportamento dos consumidores, mudanças de legislação (caso da carne embalada, por exemplo), mercados potenciais internos e externos coma a Europa e Ásia. ‘‘O baixo índice de produção, a alta lotação de animais por hectare (ha) e a reduzida taxa de ganho de peso vivo por ha; aliados a um planejamento de curto prazo da atividade, têm levado muitos produtores à baixa rentabilidade e muitas vezes à falência.’’
Definindo gargalosO pesquisador lembra da importância de um levantamento criterioso da propriedade; descobrindo quais são os ‘‘gargalos’’ da produção. ‘‘Muitos pecuaristas, por exemplo, ainda subestimam a mão-de-obra especializada na propriedade e querem que a atividade funcione empresarialmente com pessoal desqualificado’’, critica. Normalmente, segundo Alves, os principais gargalos estão na seguinte ordem: alimentação, reprodução, potencial dos animais, mão-de-obra e doenças.
Para direcionar melhor o seu negócio, o pesquisador orienta o produtor a fazer um levantamento criterioso do seu sistema de produção; o que pode ser mudado e qual a necessidade real de investimentos. O começo é saber do solo (fertilidade, erosão, aptidão), clima, localização, infra-estrutura (cercas e equipamentos), pastagens (exploração de invasoras, pragas), rebanho (composição, índices zootécnicos), qualificação de mão-de-obra e a capacidade de investimento.
No caso da alimentação, um dos problemas principais que afetam a rentabilidade do rebanho, não adianta investir em pastos mais produtivos sem adotar tecnologias adequadas. O uso da pastagem sem manejo já resultou na baixa capacidade de lotação por ha. No arenito, por exemplo, tinha-se média de 2,5 a 3 unidades/animal/ha e hoje a média é de 1,1 a 1,2 unidades/animal/ha, média que deverá baixar ainda mais nos casos onde tecnologias de manejo não forem adotadas; como adubação e reforma com forrageiras adequadas.
Todas as forrageiras, segundo Alves, têm suas vantagens e limitações. A tanzânia, por exemplo, segundo ele, é altamente produtiva, mas não tolera mal manejo. É exigente em fertilidade do solo e se não houver manejo no terceiro ano estará degradada. A degração do pasto acontece também pela lotação excessiva de animais; normalmente utiliza-se muito a área no inverno, sem rotação, deixando o pasto baixo, sensível ao aparecimento de plantas invasoras.
Quatro vezes maisAlves cita exemplo de uma propriedade onde se está usando suplementação de inverno (cana e uréia) para os animais, além de suplemento com sal no cocho, no período seco, no pasto diferido (campo reservado para ser usado no período mais seco do ano). ‘‘O manejo possibilitou vender 50% a mais de bois gordos, sendo grande parte na entressafra.’’
O pesquisador enumera outros exemplos em que a integração de pecuária e lavoura tem resultado em sucesso para o produtor. ‘‘A receita da agricultura paga os custos da reforma das pastagens (adequadas à realidade de cada região) e garante aumento de produção de carne’’. Ele fala de outro exemplo, de uma propriedade no Mato Grosso do Sul, fazendo dois anos de agricultura com cinco anos de pastagem no sistema rotativo e, a partir do primeiro ano, utilizando o plantio direto.
‘‘A produtividade da pastagem mudou de 70 quilos por hectare/ano para mais de 500 quilos/ha/ano. Outras propriedades também podem quadruplicar a produção, usando tecnologias de insumos e manejos adequados à sua realidade, com planejamento a longo prazo e administrando empresarialmente a fazenda’’. Para isso, segundo Alves, o produtor precisará ter o seguinte perfil: possibilidade de mecanização, acesso a insumos e saída da produção da propriedade, e aceitar risco da atividade agrícola, além de treinar mão-de-obra e fazer investimentos em maquinaria.

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