A chegada do inverno aumenta o risco de contaminação dos peixes por doenças típicas da estação, elevando o índice de mortalidade e ocasionando prejuízos para o piscicultor. Segundo o engenheiro de pesca Luiz Eduardo Guimarães de Sá Barreto, da Emater, a variação brusca de temperatura e a falta de cuidados no manejo causa estresse aos animais, tornando-os mais suscetíveis à contaminação por bactérias, parasitas e fungos.
A melhor maneira de amenizar o problema é a manutenção do equilíbrio ambiental. O especialista explicou que apenas o frio não mata as raças mais criadas no Paraná, como as tilápias, as carpas, os bagres e os peixes nativos. A perda dos animais acontece principalmente pela falta de conforto ambiental, ocasionada pela água fria e pelo aumento de agentes causadores de doenças.
Qualidade da Água Para manter a qualidade ambiental do viveiro no inverno, é preciso captar água de boa qualidade, livre de resíduos poluentes. Nos dias de chuvas fortes, Barreto recomenda fechar as entradas do tanque para evitar o contato com a enxurrada, que pode estar contaminada.
Outra dica importante é o controle da temperatura. De acordo com o engenheiro, a água absorve calor nas horas mais quentes do dia e o mantém durante a noite, desde que não se misture com a água gelada que chega após o entardecer. Por isso, durante as noites mais frias, é recomendável interromper as entradas, facilitando a conservação do calor.
‘‘Os peixes são pecilotérmicos, ou seja, a temperatura de seu corpo varia de acordo com a encontrada no ambiente. Por essa característica, são mais suscetíveis a mudanças climáticas bruscas, que causam estresse e abaixam o nível de resistência, facilitando a contaminação por doenças. Por isso a importância de manter as condições da água estáveis’’, disse.
Estrutura do Viveiro A conservação do calor também depende da estruturação correta do viveiro. Segundo Luiz Eduardo, o tanque precisa ter profundidade mínima de 0,8 metros e máxima de 1,8 metros, para evitar oscilações muito bruscas de temperatura. ‘‘O ideal é manter uma profundidade média entre 1,2 e 1,5 metro’’, informou.
Se possível, o viveiro deve ser construído no sentido leste-oeste, para ficar exposto ao sol durante mais tempo. A entrada e a saída de água devem ser posicionadas em direções opostas, proporcionando melhor circulação e facilitando o controle do volume de líquido.
Nas margens, ele recomenda plantar apenas grama. ‘‘Qualquer tipo de vegetação superior causa sombra, dificultando a exposição ao sol. Além disso, as árvores soltam folhas e galhos que, além de dificultarem o manejo, aumentam o volume de matéria orgânica que gera gases tóxicos e acaba por desequilibrar o ambiente’’.
Alimentação Uma das maiores causas de mortalidade dos peixes no inverno é a nutrição incorreta. Barreto explicou que esses animais param de comer quando a água está fria, pois seu organismo não é preparado para metabolizar os alimentos nessas condições. ‘‘Para sobreviverem ao inverno, eles (os peixes) possuem reservas alimentares’’, ressaltou.
Se a temperatura cair muito, é recomendável diminuir ou até parar de fornecer a ração. ‘‘Se o produtor joga comida e os peixes não comem, aumenta o volume de matéria orgânica no viveiro’’, comentou Luiz Eduardo. Segundo ele, esse contexto eleva a presença de bactérias, parasitas e fungos, que podem contaminar os animais e levá-los à morte. Além disso, algumas bactérias consomem o oxigênio da água, dificultando a respiração do cardume.
‘‘O problema pode ser evitado através da medição da temperatura da água para controlar a quantidade de alimentação fornecida. As tilápias param de comer em temperaturas abaixo de 17 graus e as carpas, abaixo de 12 graus. O ideal é seguir a tabela de nutrição recomendada pelo fabricante de ração’’, afirmou.
O engenheiro de pesca também explicou que os alimentos com resíduos animais não devem ser ministrados. ‘‘A gordura endurece quando está muito frio, facilitando a morte por rigidez muscular’’, ensinou.
Manejo Durante os dias mais frios, não é recomendável manejar os peixes, o que inclui jogar rede, passar a tarrafa ou transportá-los. ‘‘Essas atividades modificam a estabilidade do ambiente, estressando os animais e diminuindo sua resistência. Além disso, eles podem se ferir com os objetos, abrindo mais uma porta para a entrada dos agentes transmissores de doenças’’, argumentou Barreto.
A adição de sal na água diminui o estresse e facilita a cicatrização no caso de ocorrência de ferimentos. O calcário também é anti-estressante, mas só deve ser adicionado se o pH estiver equilibrado. O sal deve ser colocado na proporção de 0,5 grama por litro e o calcário, na medida de 100 gramas por metro quadrado.
Outra recomendação diz respeito à idade dos animais. ‘‘O ideal é entrar no inverno com peixes juvenis, por isso, os alevinos só devem ser colocados até meados de maio’’.
Produção Paranaense No ano passado, a Emater contabilizou 21,9 mil piscicultores em todo o Estado, que ocuparam uma área total de 8,5 mil hectares. A produção foi de 17.686 toneladas, sendo que 68% desse volume era de tilápias.
O maior canal de comercialização são os pesqueiros, mais conhecidos como ‘‘Pesque-Pague’’. O último levantamento da Emater apontou a presença de 624 pesqueiros no Paraná, que movimentaram 65% da produção total. O restante foi vendido em feiras, para a indústria ou direto nas propriedades.
A Emater também levantou que a piscicultura ocupa uma média de 2,4% da área total das propriedades rurais onde é praticada, mas gera 27% da renda total, configurando a criação de peixes como uma atividade econômica bastante viável.

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