Curitiba - Outro problema enfrentado pelo fruticultor Ângelo Platner é a disseminação do fungo pinta preta (Guignardia citricarpa) nos pomares. ''Tenho aqui um pouco da doença, como em toda região. Fazemos tratamento, aplicando produtos químicos, mas tudo é feito de forma manual, a pessoa tem que carregar o pulverizador nas costas para aplicar o fungicida. Dá muito trabalho, dificulta o controle'', relatou o produtor. A praga, que foi detectada oficialmente no município de Cerro Azul, em 2004, provoca uma depreciação dos frutos maduros, que ficam cheios de manchas pretas.
O principal prejuízo é a restrição comercial da produção contaminada, que enfrenta barreiras sanitárias. Pela instrução normativa do Ministério da Agricultura, os estados que não apresentam a doença não devem (e nem querem) receber o produto, como é o caso da região Nordeste. De acordo com a Secretaria de Estado Agricultura e Abastecimento (Seab), a presença do fungo está confirmada no Paraná, Minas Gerais, Amazonas, Mato Grosso, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Espírito Santo e Rio Grande do Sul.
Hoje, a região do Vale da Ribeira vende toda a produção para o próprio estado, além de atender demanda do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. ''Quase todos os nossos pomares têm a doença. Desde que foi detectada, travamos uma luta para o controle. Tentamos vender para mercados mais distantes, como a Bahia, mas não foi possível. Enfrentamos algumas barreiras sanitárias, mas toda nossa produção é comercializada, não perdemos nada'', informou o secretário Agenor Moura e Costa.
Ameaça aos pomares
Para a engenheira agronôma do Núcleo de Maringá da Seab, Dirlene Rinaldi, responsável pela área de Sanidade da Citricultura, se a disseminação da doença continuar no ritmo que apresenta, dentro de sete anos pode ser que não exista mais pomar de tangerina no Vale da Ribeira para comercialização. ''Se trata de uma praga quarentenária e traiçoeira, que causa danos econômicos e diminui a produtividade forçando a queda do fruto. É preciso melhorar as condições de sanidade dos pomares, os produtores devem se conscientizar e preservar o que tem plantado. Caso contrário, não terão o que colher no futuro'', alertou.
''Lá não há traços fitossanitários para proteção de doenças. A cultura é explorada de forma extrativista. A topografia dificulta o controle, já que a pulverização mecânica é muito difícil. A colheita é problemática, os produtores retiram os melhores frutos para o comércio, deixando o resto no pé e as folhas contaminadas também. O certo era recolher tudo'', pontuou Rinaldi, lembrando que é pela folha e frutos que ocorre a disseminação da praga no solo e nas plantas. O estado de Santa Catarina, por exemplo, só recebe as tangerinas sem lesões aparentes e sem ramos e folhas.
''Nas regiões Norte e Noroeste temos a citricultura comercial, cuja produção é destinada para produção de sucos e extratos, ligada a uma cooperativa. As regiões ficaram décadas sem plantar, eliminaram plantas antigas, renovaram pomares, fazem controle rigoroso de doenças e tomam cuidados fitossanitários importantes como a desinfestação antes dos caminhões chegarem. Já no Vale da Ribeira, nunca houve essa preocupação, os pomares têm mais de 30 anos, e não têm o perfil de cultura comercial'', compara Dirlene Rinaldi.
Para produzir frutos livres da doença, recomenda-se que um profissional capacitado acompanhe e oriente todo o ciclo produtivo, medida que não garante ao final obter a Certificação Fitossanitária de Origem (CFO). ''As prefeituras precisam incentivar a educação de base fitossanitária. O agricultor deve pensar que hoje ele é um empresário, seja pequeno ou grande. O município de Cerro Azul também deve cobrar uma posição do governo, sobre parcerias e investimentos para estruturar o setor'', aconselha a engenheira. (F.G.)

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