Pinhão, lucro extra no inverno
Pinhão, lucro extra no inverno
A colheita, nos meses de maio e junho, permite renda em áreas com florestas nativas de araucária
Vânia Casado
Curitiba
Acredita-se que todo o ano as araucárias despejam 300 toneladas de seus frutos, para alegria das aves e roedores que se alimentam da semente, e dos pequenos produtores que identificaram na venda de pinhão uma forma de aumentar a receita. Para o Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que desenvolve programas de fomento ao plantio de araucária, o consumo de pinhão não deve ser o único objetivo da colheita dos frutos.
A atividade é totalmente extrativa e não existe uma estrutura para incrementar a produção comercial de pinhão. Os frutos da araucária devem servir de alimento tanto para os homens e animais, como também de sementes para o plantio da árvore, recomenda o diretor de programas de Desenvolvimento Florestal do IAP, Luiz Carlos Herde. Isso porque o pinhão é um subproduto da araucária e o produtor só tem acesso ao seu fruto quando colhe a pinha ainda verde na árvore ou vai catar o fruto maduro no chão, lembra Herde.
Quase no fimNos três últimos anos o IAP começou a acompanhar esse detalhe da floresta de araucária, desde que criou a diretoria de Desenvolvimento Florestal. Herde calcula a produção de pinhão no Estado com base na floresta primária, remanescente, de araucária. Para se ter uma idéia da redução da produção desses frutos, o Paraná tinha 37% de cobertura florestal primária com araucárias até o início da exploração da atividade agropecuária.E hoje tem somente 0,25% de cobertura com araucárias, o que corresponde a uma ocupação de 50.000 hectares, acrescenta o técnico. Essa área está distribuída em parques e áreas menores controladas por empresas e produtores rurais, na região Centro-Sul do Estado.
ô com base nessa área que fazemos a estimativa de produção, disse Herde. Das 300 toneladas de pinhão, ele acredita que 200 toneladas ficam no mato mesmo. Parte serve como alimento aos animais e parte brota, surgindo outra árvore. Do total, Herde calcula que apenas um terço vai para o consumo humano. Ele acredita que neste ano a oferta de pinhão é ainda maior do que a estimada. Isto porque a pinha demora 22 meses para se formar e a cada três anos ocorre uma supersafra de pinhão. Curiosamente, 98 é um ano de supersafra de pinhão, comemora Herde.
O Iap está comprando 10% da produção colocada no mercado, em torno de 10 toneladas, para ampliar a produção de mudas. Com 50% desse volume de pinhão, estão sendo produzidas 500.000 mudas de araucária. Até o fornecimento de 100 mudas, o futuro produtor não paga nada. Acima disso, paga R$0,05 a unidade. Outras cinco toneladas do fruto são repassadas aos produtores, para fazer o reflorestamento com a técnica do plantio direto, no campo. Segundo Herde, a técnica recomendada pelo Iap é a mesma dos animais, especificamente da gralha azul, ave que se notabilizou como símbolo do Paraná, com o plantio do pinhão. O pássaro não enterra o fruto inteiro, mas a metade. Ou seja, ela comia metade da semente encontrada no chão e a outra metade ela enterrava, para os dias de carência de alimentos. Mas, como a oferta de frutos era abundante, a gralha azul esquecia onde tinha enterrado os frutos comidos e a natureza se encarregava de prosseguir o trabalho começado pela ave, fazendo nascer uma frondosa araucária, explica.
ReposiçãoAs mudas de araucária são distribuídas para os produtores rurais beneficiários dos programas de recuperação das matas ciliares e de enriquecimento florestal de área de matas nativas. As grandes empresas também começaram a investir no plantio de araucária, como forma de reposição das áreas exploradas com fins madeireiros. Herde calcula que outras 500.000 mudas são produzidas pelas empresas, totalizando um milhão de mudas de Araucária que são replantadas todo ano na região Centro-Sul do Estado.
Apesar de demorar 30 anos para formar a madeira, muitos pequenos produtores estão procurando mudas de araucária para fazer o reflorestamento de áreas de capoeira. Para isso, o ideal é plantar sementes, que por estarem em seu habitat natural se desenvolvem melhor do que as mudas, comparou Oswaldo Antônio Andrade, técnico da Emater em São José dos Pinhais.Isto porque se o solo estiver muito compactado, a raiz não conseque penetrar e a planta não se desenvolve, justifica. Ele recomenda ao produtor abrir vários trilhos na capoeira, um a cada sete metros, e a cada três metros no trilho fazer uma cova onde devem ser enterradas três sementes.
Depois disso, as covas devem ser replantadas a cada 15 dias, até a germinação da planta, para evitar que os roedores comam as sementes. Tanto no caso das sementes como das mudas, Andrade não recomenda áreas encharcadas, porque a araucária não se desenvolve com umidade excessiva. O crescimento dos pinheiros é bastante lento, nos primeiros cinco anos. Nessa fase, a recomendação dos técnicos é que a área esteja sempre roçada, para não haver competição.
Após o quinto ano, a planta dá uma estourada, com o aparecimento de vários galhos. Nessa fase o produtor tem que fazer uma derrama (desgalhar) na parte baixa, onde se formam os nós da madeira. Essa prática evita o aparecimento de nós nas toras, fator que deprecia a madeira. Além disso, a eliminação dos galhos acelera o crescimento da planta.





