Pesquisadores recomendam cautela
Ana Maria Mejia
Cautela e garantia de investimentos em pesquisa e educação são as principais recomendações de pesquisadores e ambientalistas que participaram do seminário Clonagem e Transgênicos: Impactos e Perspectivas, promovido pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado, no período de 8 a 10 de junho, em Brasília.
O encontro discutiu prós e contras do uso de organismos geneticamente modificados (OGM) na agropecuária, ou na prevenção e tratamento de doenças em seres humanos. Posições contrárias marcaram a abertura do evento. O senador Osmar Dias (PSDB-PR) defendeu a busca de maior conhecimento sobre transgênicos, para avaliar seus impactos sobre a saúde e meio ambiente.
O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Alberto Duque Portugal, argumentou que este segmento da ciência é fundamental para os negócios agrícolas do Brasil. O Brasil é competitivo em produtos de genética tropical, reafirmou. O vice-presidente da República, Marco Maciel, lembrou o Papa João Paulo II, para quem toda a tecnologia deve corresponder a uma ética e toda ciência deve corresponder a uma consciência.
DiversidadeNão conhecemos a nossa biodiversidade, tampouco os efeitos da difusão de genes sobre ela, disse o diretor do Programa Nacional de Biodiversidade e Recursos Genéticos do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias. Segundo ele, faltam informações sobre vetores, distâncias, polinizadores. É impossível avaliar a curto prazo as consequências da introdução de genes exóticos, afirmou.
O pesquisador Paulo Kageyama, especialista em ciências florestais, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq)/USP, considera precipitada a decisão de liberar plantio de OGM no Brasil, porque, das 250 mil espécies de plantas existentes na Floresta Tropical, uma pequena parcela é conhecida. E em 100 hectares há uma intensa interação, de organismos, que produz o equilíbrio. Nossa tecnologia tem agredido constantemente a Natureza, denunciou.
Os setores não estão em sintonia. Há divergências enormes pouco prováveis de serem equacionadas. O assessor da Rede de Projetos de Tecnologias Alternativas, Adriano Campolina, disse que o uso de transgênicos pode, a médio prazo, inviabilizar o trabalho de pequenos agricultores. A produção de sementes, concentrada em poucos produtores, excluiria sobretudo os pequenos. Como escolher entre sementes geneticamente modificadas e nada?, questionou. Hoje, cinco empresas dominam o mercado convencional de sementes.
AmbienteOs Estados Unidos começaram o cultivo de soja, melão, tomate, algodão e batata em 1994. Em 95, iniciaram o cultivo do milho Bt que já contém o inseticida para combate a pragas e se encontra no centro da polêmica sobre os efeitos negativos dos transgênicos sobre o meio ambiente. Pesquisadores da Universidade norte-americana Cornell denunciam a morte de mariposas que se alimentaram com o pólen desse milho.
Canadá, União Européia, Japão e Argentina também investiram, apostando no aumento de rendimento por hectare. As áreas cultivadas com sementes geneticamente modificadas se expandem, mesmo com essas dúvidas, e seus defensores argumentam que ninguém pode provar algum mal provocado por OGMs.
Na área de genética humana - especialmente na área de prevenção - as pesquisas avançam e apresentam soluções para várias doenças genéticas. O senador Leomar Quintanilha (PPB-TO), que propôs a realização do seminário, acha que a comunidade deva estar envolvida com essas discussões. Segundo ele, a população deve ser informada sobre o que consome. Esta é uma discussão que norteará as decisões desta casa, prometeu.
Um documento contendo relatórios dos seis grupos de trabalho que trataram da biotecnologia, envolvendo as áreas de saúde, meio ambiente, agronegócios, bioética, legislação e educação, ciência e tecnologia, estará disponível no site http.www.senado.gov.br. Os interessados podem fazer sugestões.





