Pesquisa teme ''apagão tecnológico''
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de junho de 2001
Carolina Avansini De Londrina 
Se o Governo Federal não voltar a investir nas organizações estaduais de pesquisa agropecuária (OPEAs), o setor corre o risco de enfrentar um apagão tecnológico. A afirmação é de Florindo Dalberto, presidente do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e do Conselho Nacional dos Sistemas Estaduais de Pesquisa Agropecuária (Consepa).
Segundo ele, há mais de dez anos esses órgãos não recebem financiamento permanente. Dalberto acrescentou que ao contrário do que acontece com a Embrapa, que é a estrutura federal de pesquisa, as instituições estaduais enfrentam sérias dificuldades para se manterem e se modernizarem. Levando-se em conta que o conjunto das OPEAs representa 60% dos recursos humanos qualificados e de estrutura disponíveis, essa situação compromete todo o Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, disse.
O presidente lembrou que as entidades públicas respondem por toda a pesquisa realizada no Brasil. A pesquisa privada é quase inexistente, ressaltou. Diante desse contexto, ele afirmou que o comprometimento do sistema público significa prejuízos a toda a investigação científica nacional.
A principal consequência dessa crise, na opinião de Florindo, é a exclusão da agropecuária brasileira do mercado internacional. A manutenção da competitividade depende da incorporação de conhecimento ao processo produtivo. Se deixamos uma lacuna aberta, ela acabará sendo preenchida por quem tem mais tecnologia, observou.
PropostaEm reunião do Fórum Nacional de Secretários de Estado de Agricultura, realizada em Brasília no dia 19 de junho, o Consepa apresentou uma proposta para recomposição da pesquisa nos Estados. O plano de recuperação prevê a alocação de R$ 100 milhões anuais, por cinco anos, para as organizações estaduais. Os recursos correspondem a um acréscimo de 20% nas dotações do Tesouro Nacional destinados ao Embrapa.
Florindo Dalberto explicou que o dinheiro será investido na modernização das entidades. Segundo ele, além da estrutura física, é preciso readequar equipamentos, laboratórios, frota de veículos, maquinário agrícola, departamentos de informática e bibliotecas.
Por falta de condições, os institutos enfrentam dificuldades para se inserirem nos campos de conhecimento mais recentes, acrescentou. Outro problema é a reposição de recursos humanos. Os pesquisadores mais antigos se aposentam e não há contratação de novos para suprir essa lacuna.
Estrutura Dados divulgados pela Consepa revelam que a estrutura das organizações estaduais de pesquisa totalizam 21 entidades em 16 estados, que reúnem 1,8 mil pesquisadores e 9,5 mil funcionários. Essas pessoas são responsáveis por 215 estações experimentais, 230 laboratórios e 70 bibiliotecas. Atualmente, respondem por 2,1 mil projetos de pesquisa com mais de cinco mil experimentos. Todo esse conjunto é mantido com R$ 250 milhões anuais, de acordo com o orçamento do ano passado.
A Embrapa, em contrapartida, congrega 37 centros onde atuam 2,1 mil pesquisadores e 8,6 mil funcionários, informou Dalberto. Em 2000, a entidade recebeu R$ 600 milhões. A diferença é grande, afirmou.
No ParanáO Iapar possui 137 pesquisadores e 986 funcionários que respondem por 18 estações experimentais, 190 projetos de pesquisa e 354 experimentos. A estrutura do instituto, que engloba 22 laboratórios e três bibiliotecas, é mantida com R$ 24 milhões mensais, conforme consta no orçamento de 2000.
Segundo Dalberto, esses recursos não são suficientes para manter todas as frentes de pesquisa. Visando evitar prejuízos à programação científica, a diretoria da entidade vem investindo na geração de recursos próprios e em convênios com a iniciativa privada, que através de fundações ou institutos, financia algumas pesquisas. Apesar desses paliativos, estamos no limite, advertiu o presidente.
Nossa estrutura está obsoleta e enfrentamos dificuldados para iniciar novas linhas de pesquisa, como é o caso da biotecnologia. Se continuarmos assim, vamos acabar excluídos do mercado, cujas exigências devem ser consideradas em qualquer discussão sobre agronegócios, nesses tempos de globalização.


