Parte do leite consumido no País pode estar contaminado por inseticida aplicado nas vacas. Uma equipe de pesquisadores do Instituto de Biociências (IB) da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), em Botucatu (SP), provou que a substância piretróide, contida nos inseticidas usados no combate às pragas, ultrapassa o couro do animal, entra na corrente sanguínea e pode contaminar o leite retirado até 35 dias depois da sua aplicação.
Nos últimos três anos, 12 amostras de sacos de leite retirados de supermercados foram analisadas. Duas apresentaram índices de contaminação de piretróide superiores aos aceitáveis. ‘‘Até hoje acreditava-se que os piretróides encontrados em inseticidas não eram absorvidos pelo organismo dos animais, mas o que o estudo demonstra é o contrário’’, afirma Igor Vassillieff, diretor do Centro de Toxicologia (Ceatox), do IB e um dos autores do estudo.
IntoxicaçãoO leite retirado do gado antes dos 35 dias após a aplicação do inseticida, tem grandes chances de estar contaminado. Este é o tempo que leva para o organismo no animal liberar a substância. ‘‘Nos primeiros 14 dias, a quantidade de resíduos encontrados é suficiente para causar intoxicação na pessoa que bebe um litro de leite’’, explica Vassillieff.
Como não se conheciam os efeitos residuais desta substância e não há legislação ou fiscalização por parte da vigilância sanitária, os pesquisadores acreditam que muitos produtores rurais ainda tiram o leite para comercialização antes dos 35 dias, o que pode estar causando intoxicação, principalmente em crianças, que são os maiores consumidores.
Os primeiros sintomas para quem bebe o leite contaminado por piretróide são irritabilidade, insônia, dor de cabeça, redução de saliva, coceira ou vermelhão na pele, convulsão ou sintomas parecidos com refriados e bronquite. O maior risco da falta de fiscalização é que o uso prolongado desse leite faz com que os sintomas se tornem crônicos. Segundo Vassilieff, o piretróide retém o cálcio livre por um período maior do que o normal e interfere na abertura dos canais de sódio das células, potencializando o grau de excitação das células nervosas.
Na pesquisa, foi aplicado o inseticida em dose indicada pela bula em 40 vacas distribuídas em 4 grupos de dez. No prazo de 35 dias, as farmacêuticas Denise Bisacot e Cristiane de Oliveira monitoraram a quantidade de resíduos no leite. Nos primeiros 14 dias, a concentração de piretróide ultrapassou em oito vezes a quantidade permitida de 50 microgramas por litro de leite, o máximo tolerado.
O leite colhido no décimo quarto dia pode conter até 390 microgramas de substância por litro de leite. ‘‘A ingestão de um litro de leite contaminado já é suficiente para causar alguns sintomas de intoxicação’’, garante Vassilieff, que lembra que esta quantidade é facilmente consumida por uma criança.
No trabalho foram estudadas as bulas dos quatro produtos mais consumidos no mercado. Nenhuma alertava para a necessidade de se cumprir o prazo de carência após a aplicação. O Ceatox recebe cerca de três casos por mês de crianças apresentando sintomas parecidos com bronquite ou refriado. O pesquisador alerta, no entanto, que a maioria dos casos deste tipo de intoxicação é ignorada pelos médicos que desconhecem o problema.
Ele acredita que a realização deste trabalho alertará as autoridades para que forcem produtores e fabricantes a fazer o controle da qualidade do leite e de outros alimentos que apresentam resíduos destes piretróides.
Vassilieff não divulgou as marcas de leite analisadas já que o trabalho é científico. Ele informou que a vigilância sanitária não fiscaliza a qualidade do leite quanto ao nível de substâncias tóxicas provenientes de inseticidas. Além dos piretróides, os pesquisadores informam que há mais três substâncias contidas nos inseticidas que podem causar mal à saúde de quem bebe leite. Medir a intensidade da contaminação destas substâncias é o próximo passo da pesquisa, mas, ainda assim, o trabalho já foi publicado pelas revistas científicas Veterinary and Human Toxicology e The Journal of Analitical Toxicology.

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