Pesquisa eleva qualidade do trigo brasileiro
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sexta-feira, 02 de setembro de 2016
Victor Lopes<br>Reportagem Local 

Por muito tempo, o trigo brasileiro foi estigmatizado por não ter qualidade suficiente para atender a industria moageira do País. É claro que o processamento que neste ano deve atingir 10,5 milhões de toneladas obriga as empresas a trazerem o trigo principalmente da Argentina, algo em torno de cinco milhões de toneladas. Entretanto, as entidades de pesquisa garantem que nos últimos anos já foram desenvolvidas cultivares com tecnologia suficiente para suprir a demanda de qualidade dos moinhos e, claro, atender as necessidades do produtor na lavoura.
A Embrapa já desenvolveu, ao longo de sua história, 57 cultivares de trigo. Só a Embrapa Soja, em Londrina, foi responsável pelo lançamento de dez cultivares na última década. O pesquisador da área de transferência de tecnologia da instituição, André Prando, relata que o trabalho é muito forte para desenvolver cultivares com qualidade de panificação para a indústria, além, claro, dos desafios ligados à sanidade e produtividade.
"Há dez anos, poderia até dizer que de fato a qualidade do nosso trigo era inferior a de outros países. Hoje, nossas cultivares são tão boas quanto as argentinas, por exemplo. A indústria moageira sabe que conta com trigos nacionais de qualidade, com força de glúten", salienta.
Outro desafio está ligado ao controle de doenças. As principais que atrapalham a produtividade dos triticultores da região são a giberela e o brusone. "São fungos que atacam a espiga, principalmente no florescimento."
A Embrapa Soja lançou cultivares com características que ajudam a diminuir a incidência desses fungos que, segundo o pesquisador, podem causar danos irreparáveis. A última cultivar, lançada recentemente, foi a BRS Graúna.
Segundo o pesquisador Manoel Bassoi, este trigo possui um ciclo diferenciado, chamado tardio-precoce: tardio para o espigamento (76 dias) e precoce para maturação fisiológica (aproximadamente 106 dias). "Essas características são importantes, porque podem beneficiar a sanidade da espiga, já que o espigamento mais tardio pode reduzir a ocorrência do brusone", explica. Já nas regiões mais frias, o fato da cultivar espigas mais tarde pode ser vantajoso para escapar de geada tardia.
Além disso, a BRS Graúna é da classe Pão/Melhorador, por isso, apresenta boa qualidade para uso em panificação e também sua farinha pode ser usada em misturas com menor força de glúten. O lançamento é indicado para algumas regiões de Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, além de todo o Paraná. "Só para se ter uma ideia do potencial produtivo desse lançamento, no Paraná, a produtividade média nos ensaios foi de 4.655 quilos por hectare (kg/ha), valor superior a média histórica do Estado, que é de aproximadamente 3.000 kg/ha", complementa Bassoi.
O Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) já lançou 33 cultivares de trigo ao longo de sua história, sendo a última em 2012. O pesquisador da área de melhoramento genético de cereais de inverno, Carlos Roberto Riede, também concorda que os materiais nacionais evoluíram bastante em comparação aos argentinos.
"Temos material de qualidade e uma variedade grande, o que chega até a atrapalhar. Sem dúvida, a nossa prioridade são produtividade e qualidade. O trigo pão, atualmente, é o mais demandado, além do melhorador, que possui uma força de glúten bem forte e serve para misturas. Temos parceria com a Embrapa Soja e Fundação Meridional para testarmos as cultivares em 20 locais distribuídos por quatro estados: Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul", finaliza Riede.


