Pesquisa desenvolve transgênicos
Melhorar a qualidade do café significa obter preço melhor pelo produto. Cerca de 15% a mais no valor da saca, destaca o pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), Luiz Felipe Pereira. Ele faz parte de uma equipe do Iapar (Luiz Gonzaga Vieira e Adilson Kenji Kobaiashi) que desenvolve o trabalho de transgênese em cafeeiro. Em três anos estarão prontas as plantas em laboratório; mais cinco anos e serão experimentadas a campo e, se tudo der certo, em 15 anos chegarão ao produtor. No melhoramento tradicional isso só seria possível em, no mínimo, 30 anos.
Pereira explica que o objetivo é produzir plantas melhoradas, de maturação uniforme dos frutos, que entre outras vantagens proporcionaria um café de melhor qualidade e redução no custo de produção. Como todos os frutos permaneceriam no ramo até a época de colheita, evitar-se-ia o café de varredura e seria colhido maior volume do cereja.
Aquele pesquisador foi um dos palestrantes do 3º Seminário Internacional sobre Biotecnologia na Agroindústria Cafeeira, realizado esta semana em Londrina. Segundo o pesquisador, a qualidade do café é determinada pela maturação dos frutos e sistema de colheita. O Iapar é a primeira instituição brasileira a trabalhar com café transgênico para maturação uniforme. França e Hawai também desenvolvem pesquisas na área de cultivares resistentes a pragas e doenças.
Como funcionaCom a trânsgenese é possível alcançar plantas de café com maturação uniforme. A maturação uniforme dos frutos, que está sendo pesquisada pelo Iapar, segundo Pereira, resultará na transformação genética das plantas e, dentro de três anos, nas primeiras plantas transgênicas com a característica desejada.
O gene de interesse para criar uma planta melhorada é caracterizado e clonado. Em seguida, esse gene é inserido, junto com genes de seleção, no DNA de uma bactéria (Agrobacterium tumefaciens) que vive normalmente no solo. Folhas de café são inoculadas com essa bactéria, que carrega o gene de interesse da pesquisa (no caso o gene Acc oxidase invertido).
A bactéria age, transferindo o gene para as folhas. O procedimento permite selecionar células transformadas, que receberam o gene de interesse. A partir daí, é feita a regeneração das plantas transformadas, num processo chamado de embriogênese. As células transgênicas multiplicam-se, resultando em embriões, que serão clonados e desenvolvidos em laboratório.
A partir de novos testes é possível verificar se o gene foi realmente incorporado ao DNA da planta, conferindo as características desejadas. O teste final será feito no campo, com o cultivo dessas mudas transgênicas em áreas experimentais.
O trabalho em laboratório está sendo feito com objetivo de criar mecanismos na planta, para inibir a formação do hormônio etileno, responsável pela maturação dos frutos. Com a inibição do etileno ocorre um atraso nessa maturação dos frutos; o café fica mais tempo na planta até que todos os frutos estejam maduros ao mesmo tempo.
A tecnologia adotada é chamada de anti-senso. É feita a inserção de um gene da própria planta, que antes é invertido através de um processo de clonagem e transformação. O gene usado, neste caso, é o Acc oxidase, responsável por ativar o metabolismo do hormônio etileno. Uma cópia do gene original é inserida na planta, neutralizando a ação do gene formador do hormônio.
Como não há variabilidade genética na natureza com essa característica, de maturação uniforme, o processo utilizado não pode ser através do melhoramento tradicional.
Tiro certeiroOutro método de transformação das plantas que será analisado é chamado de Biobalística. O pesquisador explica que ele consiste em fazer bolas de DNA e dar tiros nas plantas. Pega-se partículas de metal com o DNA modificado, com características que se quer colocar na planta. O alvo será o tecido vegetal e espera-se que esta partícula vá entrar no núcleo da planta e se misturar aos seus genes.
O pesquisador acredita que o café melhorado poderá reforçar o incremento da cafeicultura do Paraná, que já teve mais da metade da produção nacional. Nos anos 60, o Paraná chegou a ter 1,6 milhão de hectares de café e 21,4 milhões de sacas, tendo 54% da produção brasileira. Hoje, segundo dados do Iapar, existem apenas 150 mil hectares, sendo 18 mil no sistema adensado, com tendência a aumentos, e uma produção de 1,5 milhão de sacos. O Estado tem também 122 indústrias torrefadoras que acabam comprando o produto de outros Estados para suprir sua demanda. Há ainda duas indústrias que fazem exportação do café brasileiro.Josoé de CarvalhoPereira, do Iapar, acredita na transgênese para incrementar a cultura do caféCláudia Barberato





