Pesquisa busca redução de custos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de outubro de 1998
Cláudia Barberato 
Oitenta por cento dos custos de produção da criação de suínos estão na alimentação do plantel. Quando o preço do milho e da soja sobem, esse custo de produção é alterado. Os produtores, de maneira geral, adotam medidas de restrição alimentar em algumas fases da criação, provocando estresse, queda de produção e até problemas graves como úlcera gástrica nos animais (pela falta de alimento), resultando em prejuízos para a atividade.
As afirmações são da agrônoma Jacinta Diva Ferrugem Gomes, pesquisadora da Faculdade de Zootecnica e Engenharia de Alimentos, da Universidade de São Paulo (USP), campus de Pirassununga (SP). Ela desenvolve pesquisa com objetivo de alterar este quadro com o uso da fibra em substituição à soja e ao milho, para baratear custos de alimentação e ainda proporcionar bom estado físico aos animais. A fibra pode ser usada na forma de feno moído, alimento fácil de produção e encontrado em várias regiões do País.
Capricho na dietaA agrônoma garante que o suinocultor que deseje receber mais pela carcaça dos animais, não pode descuidar da nutrição do rebanho. Jacinta trabalha na área de nutrição de suínos desde 1988. O trabalho sobre uso de fibra na alimentação de suínos começou em 1994 e está na fase final. A pesquisa aborda o uso de fibra na ração de suínos como alternativa ao milho e soja, e tem apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
O trabalho envolve também a Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia (SC); Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) - Estação de Pato Branco, no Sudoeste do Estado, além da Faculdade de Veterinária da Unopar - campus de Arapongas, no Norte do Estado.
BenefíciosO alto preço dos principais componentes da ração (soja e milho), que também competem no mercado de alimentação humana, levam a pesquisa a desenvolver alternativas para os substituir, afirma Jacinta. A substituição de parte do milho e soja da ração por fibra (coast-cross ou outra capineira), além de baratear os custos em determinados momentos, garante a agrônoma, permite melhor desenvolvimento corporal dos animais.
A fêmea em gestação pode receber a fibra adicionada na ração, alimento que lhe dará melhor condição de parição e lactação, além da redução do estresse. Mas a fibra, alerta a agrônoma, não pode ser utilizada em todas as fases da criação. Nas fases de crescimento e terminação, no entanto, pode reduzir quantidade de gordura na carcaça, uma exigência do atual mercado consumidor mundial. O mercado hoje pede animais de carne magra.
Várias fasesHoje, de acordo com Jacinta, a técnica normal é empregar restrição alimentar em algumas fases da criação, para que os animais não acumulem gordura e também como economia nos custos de produção. A introdução da fibra na alimentação pode minimizar a retrição alimentar e proporcionar condição corporal ideal para parição e amamentação. Outra vantagem, enumera a agrônoma, é uma leitegada mais pesada.
Durante a pesquisa estão sendo estudadas todas as possíveis alterações provocadas pela fibra no organismo dos animais. São avaliados o que acontece no intestino (digestibilidade do alimento), desempenho dos índices zootécnicos (ganho de peso, consumo de ração, conversão alimentar) e a espessura de toucinho, que dá o teor de gordura subcutânea. Quanto maior for essa espessura, maior será o indicativo de um animal obeso, o que não interessa ao mercado consumidor.
Na pré-puberdade e puberdade o uso da fibra faz com que o animal tenha desenvolvimento corporal melhor para entrar em reprodução. Muitas vezes o peso do animal é controlado pela restrição alimentar, o que é um erro, já que provoca estresse. Quando falta alimento os animais ficam irritados e estressados. O uso da fibra na ração proporciona um processo digestivo mais longo e os animais não ficam muito tempo sem comer e nem engordam tanto.
Manejo alimentarA última etapa da pesquisa inclui o estudo de cinco ciclos reprodutivos de fêmeas em gestação, alimentadas com fibra na ração. O objetivo é analisar o efeito nos primeiros dois terços da gestação e verificar se há redução de mortalidade das crias.
Hoje, normalmente, o produtor superalimenta as fêmeas no início da gestação, aumentando muito o nível da energia fornecida aos embriões que, por sua vez, sofrem um choque energético. Por receberem uma quantidade acima do que podem suportar de energia, os embriões acabam sendo reabsorvidos pelo útero. No final da gestação, nasce um número menor de leitões do que o esperado.
O objetivo do estudo da USP, segundo a agrônoma, é traçar um manejo alimentar mais equilibrado em todas as fases de produção de suínos, com uso da fibra ou não, variando de acordo com custo de produção, viabilidade econômica e produção de carne de qualidade. A redução de estresse nos animais e de outros problemas clínicos, segundo ela, será uma consequência.
O que oferecerA agrônoma alerta que é importante oferecer a fibra, qualquer que seja a fonte, que apresente de 60% a 70% de FDN, que é a porção da fibra adequada, mais digestível. A indicação de uso da ração vai depender de orientação de um técnico e de análise laboratorial do material. A proporção a ser usada do feno ou outra capineira vai depender da idade do animal.
Para animais em recria e pós-desmama, por exemplo, a pesquisa da USP trabalhou com 8% de fibra (feno de coast-cross) na ração. Em animais de crescimento e terminação já foram introduzidos na ração 10% de fibra, capazes de promover resultados iguais aos da ração convencional. Nas fases de pré-puberdade e puberdade foram adicionados 12,5% de fibra. O desafio agora, segundo Jacinta, é aumentar esses percentuais.
Custo benefícioA redução do custo da alimentação dependerá da realidade do mercado regional, do preço do milho e da soja, entre outros fatores, e também do preço do feno a ser usado. Mesmo assim, lembra a agrônoma, há o benefício físico da fibra no organismo dos animais.
Variando época e lugar, a fonte de fibra poderá ter valor até maior do que os ingredientes convencionais da ração. Com a tendência de remunerar melhor carcaças de qualidade, mesmo um aumento de 2% a 3%, pelo uso da fibra compensaria o investimento. Os frigoríficos pagam com bonificação carcaças de melhor qualidade que só pode ser conseguido com ração melhor preparada e a fibra proporciona essa melhoria, afirma a agrônoma.


