Recursos da biotecnologia possibilitarão mais um avanço na pesquisa da cultura do café no Brasil. Pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) pretendem transformar genéticamente plantas de café para obter cultivares com maturação uniforme de frutos. O trabalho começou há seis meses e é mantido com recursos do Consórcio Brasileiro de Pesquisa Cafeeira, do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT) , do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Iapar. A previsão é que em três anos as pesquisas resultem nas primeiras plantas de café transgênico.
O pesquisador da área de ecofisiologia do Iapar, Luiz Felipe Pereira, explica que o objetivo é criar mecanismos na planta que inibam a formação do hormônio etileno, responsável pela maturação dos frutos. A redução na concentração desse hormônio permite que o grão de café permaneça por mais tempo na planta. ‘‘Com a inibição do etileno ocorre um atraso na maturação dos frutos; também não se forma a zona de abscisão (parte que une o grão ao ramo e que se rompe durante o processo de maturação) e os frutos não caem’’, explica Luiz Felipe. Os frutos do café transgênico podem permanecer na planta até 40 dias após a maturação. Tempo suficiente para que todos os frutos amadureçam.
Anti-sensoA idéia dos pesquisadores do Iapar é a mesma que levou ao desenvolvimento do tomate FLVR-SAVR - a primeira planta transgênica cultivada comercialmente no mundo. A tecnologia adotada para o café denomina-se anti-senso. Trata-se da inserção de um gene da própria planta, que antes é invertido através de um processo de clonagem e transformação. O gene que está sendo trabalhado pelos pesquisadores é o ACC Oxidase, responsável por ativar o metabolismo do hormônio etileno. ‘‘O processo funciona da seguinte maneira: uma cópia do gene orginal é inserida na planta, neutralizando a ação do gene formador do hormônio’’, explica Luiz Felipe.
Mudas serão desenvolvidas em laboratóriosO uso da transgênese é a única possibilidade de alcançar plantas de café com maturação uniforme. ‘‘Como não há variabilidade genética na natureza com essa característica de maturação uniforme, o processo utilizado não pode ser através de melhoramento tradicional. A biotecnologia vem preencher essa deficiência’’. As pesquisas estão sendo desenvolvidas com as cultivares Iapar-59, recomendada para o plantio adensado no Paraná, e a Coffea canephora (robusta), muito cultivada no Estado do Espírito Santo e na África, e utilizada no processamento de café solúvel.
VantagensA principal vantagem das cultivares do café transgênico, que devem estar validadas em aproximadamente cinco anos, é a melhoria da qualidade do produto agrícola. ‘‘Com os frutos permanecendo no ramo até a época de colheita, evita-se o café de varredura, por exemplo’’, explica o pesquisador Luiz Gonzaga Vieira. Isso reflete em outras vantagens, como maior margem de lucro para o produtor. O café de melhor qualidade tem um diferencial de preço de cerca de 25%. Luiz Gonzaga explica que, como há menor acúmulo de frutos no chão, a incidência de pragas também é menor. Além disso, diminuem os custos com mão-de-obra, já que a colheita pode ser programada ou feita de uma só vez.
A pesquisa desenvolvida no Iapar é inédita. ‘‘O Instituto é o primeiro no mundo a trabalhar com maturação uniforme em caf钒, diz Luiz Gonzaga. Existe a possibilidade, inclusive, desse trabalho receber apoio do Instituto Federal de Pesquisa Francês (Cirad). Os pesquisadores enfatizaram a necessidade de manter os recursos para a pesquisa. ‘‘É um trabalho que exige continuidade’’, explicam.
Resistência a herbicidasUm outro projeto com café começa em breve a ser desenvolvido no Iapar. Trata-se da criação de plantas transgênicas de café com resistência a herbicidas. Já foram firmados convênios com empresas privadas que permitiram ao Iapar o direito de utilizar genes já patenteados. ‘‘Vamos trabalhar com mais de uma empresa e mais de um herbicida, para que o produtor tenha opção na hora de cultivar’’, afirma Luiz Gonzaga.
A pesquisa para desenvolvimento de cultivares com maturação uniforme de frutos conta com a participação do pesquisador Adilson Kobayashi e a colaboração do pesquisador da Universidade de Ponta Grossa, Ricardo Ayoub.

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