Com o aumento da pressão sobre as terras agrícolas e os impactos das mudanças climáticas, a conservação do solo ganhou destaque como prioridade no setor agrícola paranaense. Para mapear a percepção e as práticas adotadas pelos produtores rurais, o IDR-PR (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná), em parceria com o Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) e dentro da Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada (Rede Agropesquisa), realizou uma pesquisa socioeconômica inédita focada na produção de grãos e no manejo do solo e da água no Estado.

O levantamento envolveu 630 agricultores de diferentes regiões. Os dados preliminares revelam padrões importantes sobre a adoção de práticas conservacionistas, além de fornecer subsídios para a formulação de políticas públicas e estratégias de capacitação do Sistema Faep, especialmente por meio do programa de ATeG (Assistência Técnica e Gerencial).

Segundo a pesquisa, 51,6% dos produtores adotam o CM (Cultivo Mínimo), com gradagem e/ou escarificação do solo, 20% utilizam o SPD (Sistema de Plantio Direto), enquanto 17,3% praticam o PD (Plantio Direto) sem rotação de culturas – o que descaracteriza a técnica, conforme parâmetros da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura).

Já 3,5% ainda adotam o PC (Plantio Convencional) e 7,6% não souberam informar o tipo de manejo utilizado.

Um dos gargalos identificados está na autodeclaração equivocada por parte dos produtores. A analista técnica Catherine Penter Gaudeda Machulek, do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep, afirma que os resultados apontam que muitos agricultores acreditam estar aplicando o sistema corretamente, mas, na prática, não seguem todos os pilares essenciais que garantem sua efetividade. “Muitos afirmaram usar o sistema de plantio direto, mas, ao serem questionados sobre seus pilares fundamentais — como a cobertura permanente do solo, a rotação de culturas e a mínima intervenção no manejo do solo, perceberam que suas práticas não atendem completamente ao conceito”, diz a analista.

Machulek afirma que essa falta de entendimento pode impactar diretamente na produtividade e na saúde do solo ao longo do tempo. “Quando o produtor não compreende totalmente o sistema, ele pode acabar adotando práticas que, embora pareçam corretas, não proporcionam os benefícios esperados, como maior rendimento ou melhor conservação do solo.”

Outro aspecto importante que a pesquisa mostrou é a relação entre o entendimento dos conceitos e a assistência técnica. Há uma possibilidade de que a orientação dos técnicos não esteja sendo suficientemente clara ou que os produtores tenham dificuldades em compreender as recomendações, o que reforça a necessidade de uma comunicação mais efetiva e de ações educativas específicas.

“A assistência técnica tem que dar uma atenção maior, e o produtor também tem que estar mais aberto a esse tipo de conceito”, destaca Machulek. A analista ressalta que a pesquisa está na fase de análise dos dados para entender os fatores que influenciam a adoção do sistema de plano direto e identificar como melhorar a disseminação de práticas mais sustentáveis.

“A pesquisa tem a intenção de fazer um olhar socioeconômico por parte do tema de manejo de conservação do solo, focando no entendimento que o produtor tem. Porque a partir desses estudos, a gente consegue ver onde a gente está, onde a gente encontra o sistema de produção agrícola do Estado, e quais são as possibilidades políticas e assistências que a gente tem que seguir para conseguir adotar o sistema de plantio direto efetivo”, afirma a técnica.

PREÇO DA TERRA

De acordo com os dados, práticas conservacionistas estão diretamente relacionadas à percepção de valor da terra. A pesquisa também mostrou que o plantio direto e o sistema de plantio direto são os grupos com menor incidência de erosão, enquanto 64% dos agricultores que usam o plantio convencional enfrentam erosão em suas áreas. Entre os que não souberam informar seu sistema de manejo, 70% relataram erosão.

Na avaliação dos pesquisadores Tiago Telles e Wander Piassa, do IDR-PR, há uma percepção crescente entre os próprios produtores de que áreas com solo conservado são mais valorizadas. “O preço da terra pode refletir a qualidade do solo, e isso influencia diretamente a maneira como o agricultor enxerga e cuida da propriedade”, afirma Telles.

O agricultor e agrônomo Daniel Alfredo Rosenthal, vice-presidente da Federação Brasileira do Sistema Plantio Direto para o Paraná, acredita que uma terra com solo conservado pode “aumentar não só o valor de nossa terra, mas também de nossos produtos, que com certeza terão um valor maior no mercado, já que o nosso cliente de soja no exterior procura produtos vindos de áreas com produção sustentável”.

O produtor rural cultiva 350 hectares com soja, milho, trigo e coberturas verdes, em Rolândia, na Região Metropolitana de Londrina. Ele utiliza principalmente o sistema de plantio direto. Segundo ele, a utilização da técnica tem impactos positivos difíceis de mensurar de forma direta, já que “teria que deixar uma área testemunha”. Contudo, ressalta que “uma vantagem é uma maior resiliência a fatores como a seca. O produtor explica que esse resultado é fruto de uma rotação de culturas eficiente.

Todo ano, um terço da área é cultivada com culturas de cobertura em forma de mix de plantas (aveia preta, nabo forrageiro, nabo pé de pato e braquiária) ou de forma isolada, sem mix, dependendo das condições climáticas na época do plantio.

Ele também enfatiza os benefícios econômicos e ambientais dessa prática. “Outra vantagem é diminuir o custo de produção. Em nossa região, devido ao solo ser muito argiloso, existe a tendência da compactação. Até hoje, nunca precisei realizar uma descompactação mecânica, atividade extremamente dispendiosa e que emite muito CO2 (dióxido de carbono). Quem faz essa descompactação são as raízes das plantas”, explica.

AGRICULTURA REGENERATIVA

O manejo do solo tem sido alvo de debates e avanços na busca pela agricultura regenerativa, que visa recuperar ecossistemas produtivos por meio do solo, biodiversidade, captura de carbono e uso eficiente da água, guiando a sustentabilidade econômica das propriedades.

Especialistas ressaltam a importância de superar a visão limitada baseada em fertilizantes convencionais (NPK), defendendo o resgate das funções biológicas do solo. De acordo com o engenheiro agrônomo Conrado Cagliari Fioretto, sócio e cofundador da The Soil Company, o Brasil está na vanguarda do desenvolvimento da agricultura regenerativa, com foco na saúde integral do solo como base para tornar essa prática auditável e mensurável.

A agricultura regenerativa é um conceito que tem se difundido cada vez mais pelo Brasil e prioriza a regeneração dos ecossistemas produtivos por meio da recuperação do solo, aumento da biodiversidade, captura de carbono e otimização do uso da água, sem comprometer a viabilidade econômica das propriedades.

Para isso, o manejo adequado do solo em busca de um equilíbrio entre os componentes químicos, físicos e biológicos aparece como um grande aliado dos produtores que buscam otimizar a produção, economizar recursos e promover a sustentabilidade.

Leia mais:

Estudos avançados em fazendas regenerativas têm mostrado melhoria na resiliência climática, aumento da atividade biológica, e retorno sobre o investimento no médio prazo.

Fioretto explica que há duas diferenças essenciais do olhar da agricultura regenerativa e da agricultura orgânica. “Ela é flexível, se houver a necessidade de usar fungicidas na lavoura, pode usar, mas de forma controlada, usando conceitos e princípios de vários modelos de agricultura para encontrar as práticas adequadas”.

“A segunda grande diferença é que a agricultura orgânica procurou simplesmente trocar o modelo da agricultura química, da Revolução Verde, pelo mesmo modelo, só que com produtos naturais. O foco da agricultura regenerativa não é que eu tenha que matar um inseto de uma forma mais sustentável, não. O foco é o seguinte, eu tenho que mudar o manejo do sistema para que esse inseto nem apareça”, explica o agrônomo.

Segundo Fioretto, ainda é difícil mensurar o percentual de produtores que praticam a agricultura regenerativa, pois há um conjunto de princípios, que, às vezes o produtor aplica uma e não aplica outra, mas está, de algum modo, fazendo agricultura regenerativa.

“Por exemplo, o próprio plantio direto é uma dessas práticas. Com raríssimas exceções de algumas regiões, 80%, 90% pratica o plantio direto. Não pratica na sua plenitude, mas não existe um revolvimento intenso todo ano do solo. Então isso é uma das práticas reconhecidas de uma agricultura regenerativa”, afirma.

O agrônomo cita a pesquisa “Insights Globais do Agricultor 2024”, realizada pela McKinsey anualmente desde 2018, para afirmar que o Brasil está à frente da Europa e dos Estados Unidos no uso de biofertilizantes. “Eles perguntam para os agricultores de vários países, se você tem intenção de usar? Você já usa biofertilizantes? Você já usa proteínas? Esse tipo de coisa. E o Brasil está disparado na frente de todos os países do mundo, inclusive Europa, Estados Unidos, tudo.”

mockup