Perspectivas da pesquisa de soja
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de janeiro de 2001
José Renato Bouças Farias 
Se em meados dos anos 70 o desafio da pesquisa era o desenvolvimento da soja tropical, nos anos 80 e 90 o trabalho esteve voltado ao aumento de rendimento e ao aprimoramento das tecnologias de produção. A racionalização do uso de insumos possibilitou ao agricultor conduzir com mais habilidade o controle da fertilidade do solo, das pragas, das doenças e de plantas daninhas, o que reduziu os impactos ao ambiente e o custo de produção.
Dominadas estas etapas, o desafio da pesquisa nos próximos 10 anos é aperfeiçoar ainda mais as tecnologias de produção da commodity soja, visando a estabilidade de produção, já que há uma demanda potencial de consumo de proteína vegetal, tanto para alimentação animal quanto humana. Uma outra vertente é a produção de tecnologias para mercados específicos.
Cultivares de soja menos sensíveis ao ataque de insetos, por exemplo, poderão contribuir com a agricultura orgânica. No geral, será possível observar que os avanços no lançamento de cultivares e de tecnologias de produção irão priorizar a redução ou até a anulação do uso de agroquímicos em benefício do ambiente e da diminuição do custo de produção.
Dentro de alguns anos, pequenos produtores irão conhecer uma máquina colhedora de custo acessível. O protótipo da máquina já está em fase final de testes no campo. Em se tratando de saúde, pesquisadores estão selecionando plantas com maior concentração de isoflavonas, substância presente na soja, capaz de equilibrar os níveis de colesterol sanguíneo e prevenir doenças crônicas como o câncer e a osteoporose, tecnologia que também poderá favorecer a agricultura familiar.
Estudos utilizando a biotecnologia deverão revelar ainda resultados importantes. Como são necessários grandes investimentos, a formação de redes de pesquisa será uma constante no desenvolvimento de novos projetos, garantindo maior agilidade na geração de resultados. Este ano, a Embrapa iniciou o projeto Genoma Raízes, que pretende descobrir a função de alguns genes na estrutura das raízes de quatro culturas, entre elas a soja. Outras pesquisas procuram identificar o genoma de microorganismos de significativa importância agronômica e econômica para o País.
A identificação de genes que expressam características desejáveis em soja, como maior tolerância à seca, resistência a herbicidas, insetos e doenças, também são pesquisas em andamento. Outra inovação, fruto da biotecnologia, é a produção de substâncias de interesse farmacêutico como a insulina e o hormônio de crescimento humano em grãos de soja. O trabalho já vem sendo desenvolvido pela Embrapa em parceria com a Unicamp e os primeiros resultados são animadores.
A busca de soluções competitivas continuará sendo a diretriz do programa de pesquisa da Embrapa Soja. Para maximizar essas ações, foi instituído no ano passado o Conselho Assessor Externo, que tem o papel de avaliar os rumos da pesquisa e abrir mais um canal para atendimento das demandas da sociedade. Dentro das políticas da Empresa, o fortalecimento de parcerias com instituições públicas e privadas e ações de transferência de tecnologia são fatores primordiais, que irão garantir o sucesso da pesquisa e a manutenção da independência tecnológica do País na produção de soja.
O autor é Chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Soja.


