Perspectivas da avicultura
Perspectivas da avicultura
Hélio Schorr
Final de ano é sempre época de avaliar os resultados obtidos no período que passou e de tentar uma prospecção em relação ao ano que se inicia. O ano de 1997, que está por terminar, mostrou-se bastante difícil para as empresas que operam no setor avícola.
A produção total de carne de aves no Brasil deve situa-se ao redor de 4.450.000 toneladas, quase 10% superior àquela obtida em 1996 (4.052.000 t). Esta produção decorre da implantação de novos projetos e da expansão de projetos já existentes. Do total produzido, cerca de 600 a 650 mil toneladas deverão ser exportadas. Muito abaixo das 700 mil toneladas que se esperava vender no Exterior.
Em decorrência disto, a oferta do produto no mercado interno cresceu de 3.483.000 para em torno de 3.850.000 toneladas. Como o mercado interno já vinha sendo adequadamente suprido, com um consumo per capita de 23,5 kg, está havendo uma sobra de produto, que as empresas estão tendo que estocar ou colocar no mercado a preços mais baixos.
Usualmente, o frango inteiro resfriado costumava ter seus preços aumentados, no segundo semestre, em aproximadamente 10% sobre os preços praticados durante os primeiros seis meses do ano. Em 1997, já resultado desta superoferta, isto não ocorreu. No mercado paranaense, o preço médio do frango resfriado no atacado caiu 11,3%, de R$ 1,24/kg em janeiro, que tradicionalmente era o pior mês do ano, para R$ 1,10 em novembro.
Em relação aos custos, no mesmo período, o milho, o farelo e o óleo de soja, principais componentes da produção, aumentaram respectivamente de 3% para 8,3% e 6,2%, fazendo com que os custos de arraçoamento se elevassem aproximadamente 5%.
Decorrência desta conjuntura são os elevados estoques - estimados em 200 a 300 mil toneladas - que estão sendo carregados pelas empresas, e o sinal de alerta vermelho que certamente aparecerá quando do fechamento dos seus balanços.
PrevisãoFazer previsões é sempre uma empreitada de alto risco. Tendo como base a conjuntura atual e os indicativos de produção de milho e soja na próxima safra, e considerando ainda a perspectiva de alojamento de aves, e consequentemente a produção de carne, bem como a análise das consequências do crash nas Bolsas da Ásia e o pacote econômico implantado no Brasil, é possível fazer uma razoável projeção do que poderá acontecer à atividade avícola em 1998.
A safra de milho do Centro-Sul do Brasil, já semeada, deve ser 15 a 17% inferior à obtida em 96/97, caindo de 36.150.000 toneladas para 28.320.000 t. Embora haja uma expectativa de a safrinha, que é cultivada entre março e junho, compensar parte dessas perdas, e considerando que os estoques reguladores do Governo praticamente inexistem, poderá faltar o produto no mercado. Isto determinará um aumento de preços de aproximadamente 15%, passando de R$ 7,30 a saca para R$ 8,50 a saca no segundo semestre.
Este aumento será ainda maior, para aproximadamente R$ 11,00 a saca, caso haja uma frustração na safrinha e o Brasil tenha que participar do mercado internacional, importando o produto.
A produção de soja, por outro lado, deverá crescer de 26 milhões t para aproximadamengte 30 milhões t. Como consequência os seus preços devem cair para ao redor de R$ 15,00 a R$ 16,00 a saca. Como estas duas matérias-primas são os principais formadores dos custos de produção do frango, é de se esperar sua elevação em aproximadamente 5 a 10% durante o ano de 1998.
Além dos elevados estoques há, em decorrência dos novos projetos avícolas e da tentativa de ganhos em escalas das unidades já existentes, a perspectiva de um crescimento de 5 a 10% na produção de frango no Brasil em 1998.
O mercado interno, em decorrência do pacote FHC, ressente-se da redução de renda decorrente do aumento de recolhimento de tributos, e de uma insegurança geral quanto às perspectivas de emprego. Isto está determinando uma retração significativa - ainda inquantificável - da demanda.
As exportações devem cair significativamente. Em razão do crash nas Bolsas da Ásia, praticamente todos os países adotaram como política econômica a desvalorização de suas moedas. Em consequência disto, os principais importadores de carne de frango do Brasil - Japão, que absorve 34% e Hong Kong, que absorve 25% das exportações brasileiras - devem exigir preços mais baixos, para continuar importando. Considerando que o Real está sobrevalorizado, fica ainda mais difícil competir com os concorrentes diretos no mercado asiático, que são a China e a Tailândia. Estes imapctos já apareceram em outubro de 1978, quando o Japão reduziu suas importações do Brasil de 15,5 para 7 toneladas, segundo a Abef.
Assumindo-se que estas previsões estão corretas, alguma atitude terá que ser tomada pelas empresas que atuam no setor. A ação mais sensata parece ser a redução de alojamentos. Reduzir a produção trará impactos imediatos na demanda de milho, que deverá naturalmente refletir-se em preços mais baixos deste insumo e, consequentemente, nos custos de produção das aves.
É verdadeiro que, por outro lado, a redução de produção impactará negativamente os custos pelo lado das perdas de escala industrial. Estas perdas, entretanto, deverão ser compensadas pelos ganhos de produtividade no campo, já que, com a redução de produção, será possível uma seleção mais adequada dos produtores pelo nível de tecnologia e eficiência econômica do processo de produção.
A redução de produção implicará também na queda da oferta do produto tanto para o mercado doméstico quanto para o internacional. O reflexo nos preços do produto deverão ser sentidos muito rapidamente. Acredita-se que assim será possível uma situação de equilíbrio entre custos e preços.
Empresas produtoras de matrizes, ovos férteis, insumos para rações, medicamentos e sobretudo os trabalhadores que atuam neste segmento do mercado, deverão ser atingidos por ações deste tipo. Ainda assim, será melhor que a situação atual, em que as empresas estão apostando uma corrida para o abismo. Hoje, a expectativa de todo dirigente de empresa é saber quem tem fôlego para morrer por último.
O autor é médico-veterinário, MsC em Economia Rural e gerente de Produção Animal da Copacol, de Cafelândia, PR.





