Perda na colheita ainda é grande
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sexta-feira, 17 de julho de 1998
Cristina Côrtes 
Grão deixado no chão é dinheiro jogado fora. O produtor sabe disso, mas a cultura do desperdício ainda faz com que os índices de perdas nas lavouras de trigo sejam altos. Segundo informações do pesquisador José Antônio Portella, da Embrapa Trigo (RS), somando as perdas na colheita às decorrentes do transporte, do armazenamento e do processamento industrial, chega-se a desperdiçar 15% da produção.
O Paraná tem a maior área cultivada do País - aproximadamente 850 mil hectares nesta safra - e a colheita deve ser iniciada na segunda quinzena de agosto. O produtor precisa preparar as máquinas agora, se não quiser ter prejuízo. O agrônomo Otmar Rubner, do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab), informa que as lavouras estão bem desenvolvidas, e a única preocupação é o risco de geadas neste período que antece a colheita. A produção estimada é de 1 milhão 680 mil toneladas, com produtividade média de 1.980 kg/ha.
PesquisaSegundo José Antonio Portella, a preocupação com os alarmantes índices de perdas na colheita não é recente. Estudos sempre foram realizados, ações governamentais já foram implementadas, mas nenhum segmento envolvido levou adiante o trabalho de, uma vez detectado o problema, resolvê-lo com o desenvolvimento de novas tecnologias.
Os resultados de um trabalho conjunto da Embrapa Trigo, Emater e cooperativas do Rio Grande do Sul concluem que existe uma correlação entre teor de umidade, regulagem dos mecanismos e o índice de perdas. As perdas médias ficaram em 4,7%, sem regulagem adequada, caindo para 3%, com algumas regulagens básicas. Com 16% de umidade nos grãos, a percentagem de perdas chegou a 5,4%, baixando para 1,8% quando a umidade passou para 12%.
Dorico da SilvaO desenvolvimento das lavouras no Estado está bom. Preocupação é com geadas antes da colheitaEm pesquisa realizada na região de Dourados (MS) os dados mostram que, de 24 lavouras pesquisadas, 16 apresentaram perdas abaixo de 5%, seis entre 5 e 10% e apenas duas acima de 10%. O que mais chamou a atenção foi que os operadores das colhedoras não estavam cientes nem preocupados com as perdas na colheita.
O pesquisador José Antonio Portella cita um bom exemplo sobre quanto pode ser ganho com ajustes adequados e operações corretas na colhedora. Suponhamos uma colhedora operando com perda média de 7%. Com alguns ajustes de velocidade, na abertura de cilindro e côncavo, no molinete, nas peneiras, no ar e na rotação do cilindro, diminui-se esta perda para 3% (considerada normal para trigo). Se o rendimento médio da lavoura é 2.000 kg/ha e, na média, colhem-se 2 hectares por hora, ao fim de uma jornada de trabalho de 8 horas terão sido colhidos 16 hectares.
Considerando 7% de 2.000 kg/ha, perdem-se 140 kg/ha, e 3% de 2.000 kg/ha causam 60 kg/ha de perda. Ou seja, 80 kg/ha de lucro x 16 hectares/dia representarão 1.280 kg, o equivalente a 21 sacos de trigo por dia de colheita que não seriam perdidos.
Como evitar as perdasUma das causas do desperdício é a falta de perícia do operador. Um bom operador de colhedora, treinado, que conhece o funcionamento da máquina, os princípios básicos de operação, deve saber identificar e quantificar as perdas, fazendo corretamente os ajustes na colhedora.
Outra causa importante são as más condições da lavoura. Em lavoura com excesso de ervas daninhas deve-se reduzir a velocidade de avanço e/ou fazer um corte mais alto, de modo a diminuir a quantidade de material verde que entra na colhedora. Onde houver produto caído: reduzir a velocidade de avanço e baixar a altura de corte. Para trigo, recomenda-se usar os levantadores de cereais, na plataforma de corte.
O nível de umidade do grão pode resultar em maior perda, em menor preço e em maior custo de armazenagem. A colheita deve começar quando a umidade do trigo estiver ao redor de 15% de umidade, chegando ao final com umidade em torno de 12% (dependendo do tamanho da lavoura e das condições climáticas).
Buscando resposta para este nível de perdas, verificou-se que a umidade do grão era o fator que alterava a média de perdas. Colhendo com elevado teor de umidade (26,4 %) a perda total chegou a 8,6 %. Com grãos mais secos (18,0 %), a perda caiu para 5,3 %, ou seja, uma redução de 61% nas perdas totais.
O que já foi feitoEm meados de 1980, o Ministério da Agricultura instituiu um grupo de trabalho com representantes da Embrapa, Emater, Cibrazem e Cenea, para analisar os dados existentes sobre perdas de grãos em todo o processo, desde a colheita até o armazenamento. Diante dos fatos apontados pelo grupo de trabalho, concluiu-se que seria recomendável a adoção imediata de um elenco de medidas, visando reduzir o índice de perdas de grãos, durante a colheita e nas fases posteriores.
Muitas ações de pesquisa e de extensão rural foram efetuadas nos primeiros anos da década de 80. A Embrapa fez uma síntese dos trabalhos sobre perdas na safra 80/81 para as culturas de arroz e trigo. Os resultados mostram que, no arroz de sequeiro, as perdas médias foram de 2 a 6%; no arroz irrigado, perdas de até 30% e, no trigo, perdas médias de 5%. A metodologia usada para simplificar a análise de perdas foi o copo medidor, com o método volumétrico de estimativa de perdas. (Ver box: regras para colheita)


