Jota Oliveira
De Londrina
O percevejo (na verdade são duas espécies, denominadas cientificamente Scapteocoris castanea e Atarsocoris brachiria), que pode permanecer até seis meses em diapausa, sem comer, enterrado em cápsulas a dois metros da superfície do solo, sobe nesta época, atraído pela chuva, pela soja e porque está na época de revoada. No ano passado ele surgiu em lavouras de soja no município de Sapezal, a 500 km de Cuiabá, na divisa com Rondônia.
A engenheira-agrônoma Andréia Malaguido, da Fundação Mato Grosso, informou que o percevejo tem atacado principalmente soja e algodão, mas também prejudica outras culturas, entre elas cana, café, mandioca, até coco-da-bahia. Em Mato Grosso a praga apareceu na soja, pela primeira vez, na safra 98-99, - quando uma máquina plantadeira encalhou numa reboleira do inseto. O Centro Nacional de Pesquisa de Soja, sediado em Londrina, recebeu comunicação a respeito do achado e foi ver. Em seguida instalou-se em Cafezal, numa fazenda da família Maggi, um campo experimental para pesquisar o inseto, meios de controle e seu comportamento.
Andréia é a coordenadora local do projeto, enquanto a entomologista Lenita Jacofb de Oliveira, pesquisadora da Embrapa Soja, é a coordenadora, nesse centro de pesquisa sediado em Londrina, dos estudos sobre o percevejo castanho. Esta praga ataca em reboleiras, formando manchas na lavoura. Lenita diz que dentro da reboleira as perdas podem chegar a 100%, mas em termos gerais na lavoura toda, variam de 20 a 70%. Por enquanto, a principal ocorrência é na região dos Cerrados.
PesquisaEm Sapezal, Andréia Malaguido e sua equipe estão repetindo ensaios iniciados no ano passado, para estudar o percevejo castanho e experimentar métodos possíveis de controle. Por enquanto não se chegou a isso. Sobre os efeitos do ataque, a equipe constatou que uma produtividade de 60-70 sacas por hectare de soja pode cair para 10 sacas ha. Andréia lembra caso de agricultor que gradeou de 500 a 600 ha, por causa do percevejo.
Estão sendo feitos vários testes de controle químico e biológico, com fungos, da praga, mas até agora nada deu resultado satisfatório, devido ao hábito do percevejo, de se enterrar no solo à procura de umidade. ‘‘O percevejo é extremamente adaptado para cavar; por mimetismo (cor da terra) engana os inimigos naturais. Seus principais inimigos são as formigas.
Outra forma de adaptação a situações de risco é a diapausa. Numa seca prolongada o inseto se encasula em cápsulas a profundidade de até dois metros, e entra em diapausa por seis meses, período que passa sem se alimentar.
Por tudo isso os pesquisadores não podem fazer ainda qualquer recomendação viável de controle, inclusive o controle mecânico por gradeamento, pois o inseto pode estar a uma profundidade de 30-40 cm sob a superfície do solo e se aprofundar ainda mais; as grades passam por cima sem atingi-los. Também essa questão da profundidade tem sido pesquisada. Andréia e seus companheiros de equipe abrem valetas de 50 centímetros de comprimento por 20-30 cm de profundidade e contam as ninfas e os adultos que encontram nesse espaço, para saber se o controle está funcionando. Periodicamente escavam até 1,50 m de profundidade, para calcular a intensidade da infestação.
Devido às dificuldades, em Sapezal conseguiu-se no máximo um controle de 50% da infestação. Andréia faz algumas recomendações de manejo: deve-se deixar a área bem limpa; o uso de grades pode matar os percevejos por esmagamento, mas é complicado devido ao hábito subterrâneo da praga. A agrônoma salienta que, na pesquisa, é importante fazer o monitoramento do percevejo, ver em que profundidade ele está, conhecer seus hábitos, inclusive a dispersão – os percevejos saem nesta época em revoada e se dispersam pelo vento. Assim, podem abandonar uma área totalmente livre e ir infestar uma área que não estava sob ataque.
Sem controleA pesquisadora Lenita de Oliveira, da Embrapa Soja, confirma que ainda não existe método eficaz de controle dos percevejos, que sugam as raízes da soja e outras culturas. Ela destaca o esforço que várias instituições estão fazendo para conseguir o controle. Participam do trabalho, em parceria com a Embrapa, algumas cooperativas, Fundação Mato Grosso, Empaer de Mato Grosso, Empaer de MS, Faculdade de Agronomia de Rio Verde, Goiás, Epamig, Esalq e Instituto Biológico de São Paulo.
Lenita acrescenta que os percevejos já estão presentes em Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Triângulo Mineiro e Oeste de São Paulo, perto da divisa com Paraná, como Pedrinhas e Cândido Mota.Praga típica de pastagens, o percevejo castanho está agora causando estragos na soja
Paulo WolfgangEngenheira-agrônoma Andréia MalaguidoO percevejo castanho é uma nova preocupação e está recebendo a atenção da pesquisaPeriodicamente são escavadas covas, para saber a profundidade em que estão os percevejos