Faz tempo que meus amigos João e Alemão insistem para que eu participe de pescarias no pantanal mato-grossense. O motivo da minha recusa é o fato de não saber pescar. E, além de não saber pescar, também não sei mentir. E pescador que se preze tem que ser bom mentiroso. Pensando nisso, descobri que minha falta de prática na pesca decorre de fatos da minha infância. Meu pai costumava acampar com seus amigos na beira de rios, pescando com tarrafas, redes e espinhéis.

Naquele tempo havia abundância de peixes, certas práticas não eram proibidas e eles não utilizavam varas ou molinetes. Por isso que não aprendi a pescar. Morávamos numa pequena cidade do interior e meu pai utilizava uma carroça para ir até os locais de pesca e, com doze anos de idade, eu preparava a carroça e ajeitava as tralhas e mantimentos. Ficava contente porque podia dirigir a carroça pelos caminhos rurais até o lugar do acampamento.

Chegando lá, meu trabalho era fazer uma cabana com galhos de árvores e acender a fogueira antes de escurecer. Ficava sozinho até tarde da noite, esperando que os homens voltassem do rio onde tinham ido montar as redes e espinhéis. Aprendi a enxergar na escuridão e identificar os animais do lugar, convivendo sem medo com gatos do mato, raposas, corujas, tatus, quatis, graxains e ouriços.

Um dos parceiros de pescaria do meu pai era o Pedro Cachimbo, um caboclo forte, exímio pescador e grande mentiroso. Gostava de acompanhá-lo na pesca noturna de traíras na beira das lagoas, quando ele "caçava" belos exemplares utilizando apenas facão e farolete. Numa noite de lua cheia pegamos 77 traíras, também conhecidas como "lobó". Além de habilidade com a tarrafa, Pedro Cachimbo sabia pescar com varas, linhadas, anzol de galho, peneiras e "covos".

Contava que certa vez havia fisgado, sem isca, um casal de pintados com mais de 30 quilos cada, utilizando um anzol de galho. Mas como era época da piracema, os peixes estavam namorando e arrastaram o galho, a árvore e um barco de 12 metros pra dentro do rio. Terminada a pescaria voltávamos à cidadezinha e saíamos distribuindo peixes pela vizinhança. Era uma oferta dos pescadores, pois como dizia o Pedro Cachimbo, a pesca tinha sido graúda. Em cada casa que a gente parava, as pessoas perguntavam como tinha sido a pescaria.

Ele me dava uma piscada e, como de costume, respondia com seriedade: - "Foi uma fartura, deu uns 35 quilos de peixe. Pena que tivemos que soltar um cascudo de 7 quilos, porque eu logo vi que era fêmea e tava para ter filhotes".

- "Mas podem escolher 2 quilos pra vocês. Já larguei 18 quilos na venda do Adílio para dar aos fregueses, mais 12 quilos na creche da prefeitura. Deixei 10 quilos na escola, 15 quilos pra Dona Rosa que cuida do asilo, 6 quilos ficaram para o padre Chico e ainda sobrou uns 8 quilos. Isso sem contar uma dúzia de lambari-açu, com quilo e meio cada, que vamos fritar lá em casa".

Enquanto as pessoas tentavam assimilar tantas mentiras, ele fazia um sinal para que eu levasse a carroça para a próxima entrega. Como eu gostaria de saber pescar e mentir como o Pedro Cachimbo!

Gerson Antonio Melatti, leitor da Folha

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