A pecuária de corte paranaense viveu um momento cíclico, de altos e baixos durante a última década. Num primeiro momento, o pecuarista sofreu com os preços defasados, elevados custos de produção e viu a agricultura – leia-se soja – empurrar sem dó nem piedade a atividade para áreas marginais e declivosas, de menor infraestrutura. Não por acaso, o rebanho de corte do Estado gira hoje em torno de 6,5 milhões de cabeças, depois de um abate sistemático de matrizes que os produtores realizaram para se manter no negócio.
Em 2014, entretanto, o jogo começou a mudar. Com a redução na oferta de animais, o valor da arroba ganhou novo fôlego, acompanhando a alta do preço do bezerro e dos animais para recria. Junto a isso, a alta do dólar fomentou as exportações em bons níveis, que cresceram significativamente no período – e apesar de representar apenas 20% do volume total produzido – ajudaram a manter os preços internos em bons patamares. Agora, o desafio do produtor está em tecnificar sua propriedade, melhorar os índices zootécnicos, focar na gestão, entre outros aspectos para se manter firme neste mercado de altos e baixos. Desafio complexo, mas possível, que requer investimento e uma mudança de cultura.
O presidente da Comissão de Bovinocultura de Corte da Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), Rodolpho Luiz Werneck Botelho, salienta que nos últimos dois anos o mercado foi revigorado, com uma demanda maior por tecnologia, melhoria de pastagem e genética, o que começou a dar bons resultados. "Ainda não estamos competindo com a agricultura, mas são ações significativas."
Ele monta um cenário dizendo que o Paraná não possui hoje um rebanho de fêmeas capaz de sustentar a produção de bezerros para nível de engorda. Por isso, animais de estados vizinhos, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul são necessários para manter a atividade do Estado. "Precisamos recuperar parte dessas matrizes e a produção de bezerros no futuro. Os objetivos principais agora são melhorar as taxas de desfrute, desmama, o ganho de peso e a lotação por hectare. Acredito que seja possível, com melhora de pastagem e manejo, fazer a nossa taxa média de natalidade saltar de 65% para 75%. Outro ponto é fazer a idade de abate cair de 36 para 30 meses. Já temos diversas regiões do Estado abatendo animais com 14 a 16 meses", exemplifica Botelho.
O representante da Faep comenta que nestas áreas de alta eficiência, inclusive de pequeno porte, há produtores realizando consórcio com agricultura, com retorno financeiro elevado. Um dos entraves, segundo ele, é que o pecuarista tem dificuldade de absorver novas informações e tecnologias. "Precisamos mudar a mentalidade do produtor, para que ele encare, por exemplo, a pastagem como sendo uma cultura, como a soja e o milho. Assim, ele vai investir para obter retorno em curto e médio prazos. Temos casos de agricultores que também se tornaram pecuaristas com resultados extraordinários, já que aplicam gestão e tecnologia na atividade."
Botelho relata que um dos empecilhos para que toda essa engrenagem trabalhe sem transtornos é que a economia brasileira tem travado o consumo interno. "Mesmo assim, temos o mercado internacional para balancear isso e o preço da arroba continua bom pela falta de produto. Temos que cuidar também dos custos de produção, já que a inflação vai forçar uma reposição (de preços) dos insumos."
Para Botelho, o Brasil tem um grande potencial de crescimento comparado ao cenário de outros países. "Os Estados Unidos estão com o menor rebanho dos últimos 50 anos e a Austrália com problema de seca. Temos um potencial para fornecimento mundial muito grande, mas precisamos fazer o dever de casa."

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