Pecuarista tem que ser agricultor
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de setembro de 1997
Cláudia Barberato 
Arquivo FolhaLotaçãoFertilidade no pasto representa maior número de animais por áreaO que se espera de uma propriedade rentável em pecuária hoje representa colocar acima de duas a três unidades/animal por hectare e obter produção acima de 300 quilos de carne hectare/ano. Na realidade, a média brasileira, está bem longe destes índices: meia unidade animal por hectare e de 20 a 40 quilos de carne por hectare/ano; quando é possível chegar a um resultado até 10 vezes maior do que esse.
A afirmação é do professor Cláudio Haddad, master em nutrição animal e pastagens, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba, SP. Haddad esteve esta semana em Paranavaí, no Noroeste do Estado, para uma palestra sobre tecnologia e manejo de pastagens, destinadas a pecuaristas e técnicos, promoção da Associação Brasileira de Marketing Rural (ABMR).
Solo fértilHaddad afirma que a melhora nos índices de ganho de peso dos animais criados a pasto depende, em primeiro lugar, de empenho do pecuarista em oferecer uma pastagem de qualidade e, pasto bom, só em terra com fertilidade. Antes de tudo, um bom pecuarista deve ser também um bom agricultor, afirma.
Ele chama a atenção dos produtores para a importância do manejo e fertilidade do solo; considerando que o criador deve levar em conta, no seu planejamento da atividade, o clima, a genética dos animais e a elaboração de comida suplementar, quando necessário, a fim de manter elevada a lotação nas pastagens e conseguir maior rendimento.
De acordo com Haddad, a preocupação inicial do criador, que quer melhorar os índices de produção de sua propriedade, deve ser com a fertilidade do solo onde está instalada a pastagem. Segundo o professor da Esalq, não se pode mais conviver com a velha mentalidade de destinar às pastagens as piores áreas da propriedade.
Maior consciência Segundo ele, nos últimos anos, grande número de pecuaristas têm procurado melhorar as condições de sua terra. O pecuarista atualmente tem se mostrado mais consciente de que precisa ser um agricultor de pasto. Haddad afirma que foram as condições de mercado que forçaram a uma tomada de consciência maior por parte do produtor, para enfrentar a concorrência de mercados externos e internos.
Esta conscientização, segundo ele, começou no plano econômico do Governo Collor, quando houve entrada de produtos agrícolas de outros países, competindo com a carne brasileira. A situação acelerou-se no Plano Real, quando cessaram-se lucros financeiros e a especulação bancária. Quando se tinha ganho financeiro no mercado podia-se mascarar a ineficiência.
Aumentar a lotaçãoA lucratividade passou a depender da eficiência de produção. No caso do gado de corte, adubar e manejar melhor o pasto, foi uma das primeiras atitudes dos criadores. O objetivo hoje é colocar o maior número de animais por área e engordá-los em menor tempo. Segundo dados da Embrapa, a lotação média de pastagem brasileira atual é de meia unidade animal por hectare. Mas observam-se fazendas de ponta, com cinco ou seis unidades por hectare, ou até mais. Existem várias formas de conseguir melhorar os índices. Uma delas é devolver a fertilidade perdida, fazendo a correção e adubação clássica.
O trabalho pode ser feito em consórcio com a agricultura. O pecuarista acaba vendendo o grão e reduz o custo de reforma. Pode ainda tercerizar o serviço e receber, depois de um tempo, o solo recuperado. A opção pelo consórcio e a terceirização vai depender da demanda pelo solo agrícola onde está a propriedade. No Paraná, geralmente, existe grande demanda por terra para arrendamento. O bom pecuarista é aquele que trabalha pela integração das duas atividades, pecuária e agricultura.
De certa forma, segundo Haddad, o pecuarista já sabe como iniciar o trabalho de reforma ou recuperação de pastagem. O primeiro passo é fazer a análise do solo para saber o nível de fertilidade e entrar com programa de correção, fazendo calagem, fosfatagem e demais adubações, sempre no período das águas. Se for necessário deverá fazer a ressemeadura na área, retirando o material mais fraco (capim que existia na área) arando e gradeando. Deverá também pensar numa melhor divisão de pastos, com áreas menores para evitar desperdícios.
Outra medida é adotar um programa de produção de alimentos para suplementação dos animais na época crítica de pastagens; escolhendo cana, silagem ou aveia. O manejo envolve ainda a mineralização do rebanho e escolha de genética adequada para a seleção de animais.


