A médio prazo espera-se que boa parte dos pecuaristas brasileiros transformem-se dos atuais produtores a fornecedores de carne, colocando no mercado um produto padronizado, de qualidade e com oferta contínua. A nova postura poderá trazer não só aumento de lucros para a atividade, mas também uma maior credibilidade ao produto.
A opinião é do superintendente técnico da Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB), Eduardo Pedroso. A ACNB deverá lançar em breve a marca de carne nelore, certificada e rastreada, com informações sobre todo o processo de produção dessa carne, desde o nascimento do animal, para garantir a qualidade do bife no prato do consumidor. Para isso está incentivando pecuaristas a adotarem a rastreabilidade em seus rebanhos.
Segurança para consumidor O mercado mundial pede hoje, garante Pedroso, alimentos que tragam segurança aos consumidores. Depois de episódios como vaca louca e aftosa nos rebanhos da Europa e América do Sul, o consumidor está mais atento e exigente. É importante, segundo Pedroso, provar que a carne produzida é segura e saudável. ‘‘Isso representa para o pecuarista não só colocação melhor no mercado, mas também um rendimento maior na sua atividade. Do contrário não adianta melhorar índices de produção e produtividade se não há garantias de consumo.’’
Para fornecer qualidade, avisa Pedroso, o pecuarista terá que administrar melhor seu negócio, conhecer o rebanho, controlar manejo alimentar e sanitário, enfim, seguir os passos da produção desde o nascimento do bezerro até o abate fazendo a chamada rastreabilidade.
O projeto da raça nelore, conta Pedroso, visa inicialmente abastecer os grandes centros consumidores do País. ‘‘Precisamos aprender a valorizar o consumidor interno já que a exportação, embora seja importante, significa apenas 9% da produção total.’’
Maior remuneração Com o rastreamento do rebanho, seja ele da raça nelore ou não, é possível corrigir erros no manejo e obter uma produção equilibrada de todos os animais. O essencial é garantir a origem, sanidade e a terminação adequada da carcaça.
Programas de grandes grupos agropecuários, que adotaram a rastreabilidade, alguns há mais de cinco anos, em parceria com a iniciativa privada (indústria e pontos de distribuição), têm obtido um rendimento diferenciado pela carcaça entre 3% e 5%.
‘‘O objetivo da ACNB é que o rastreamento não seja adotado apenas por grandes pecuaristas, aqueles que possuem um rebanho acima de 10 mil vacas. O pequeno produtor, com rebanhos de até mil vacas, poderá desfrutar das mesmas condições, adotando aos poucos o controle de seu rebanho, do contrário estará fora do mercado,’’ acredita Pedroso.
De início, segundo o técnico, pequenos e médios podem fazer o controle de qualificação de carcaças. No caso do nelore, por exemplo, certificar-se de que aquele animal que está criando e abatendo atende as características da raça e que foi criado a pasto.
Só esse controle inicial, que não demanda gastos, mas um gerenciamento melhor, de acordo com Pedroso, pode garantir boa colocação do produto no mercado. A melhor remuneração poderá permitir o investimento numa segunda etapa: controlar os últimos seis meses de vida do animal, para garantir vacinações, alimentação e manejo adequado, na fase de terminação e engorda.
Ao ir adotando novos parâmetros de controle, segundo Pedroso, o pecuarista, mesmo fazendo investimentos, estará também agregando valores ao seu produto, que será uma matéria-prima controlada desde a origem. ‘‘Poderá, portanto, receber mais por isso e fazer investimentos na propriedade.’’ À medida que for ampliando o nível de informação sobre os animais até chegar ao controle total do nascimento ao abate, na opinião de Pedroso, o produtor irá tornar-se um fornecedor de carne e abastecer o mercado de produtos iguais todos os dias.
Dificuldade para o pequeno A adesão de pequenos e médios pecuaristas ao sistema de rastreamento, na opinião do pesquisador da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), Keppler Euclides Filho, passa ser uma questão política. ‘‘Sem apoio do governo e de cooperativas ou associações, dificilmente esses produtores terão condições de participar desse processo.’’
O desafio da pesquisa, segundo Keppler, tem sido o de criar tecnologias que possam dar condições do pequeno e médio produtores de não serem excluídos da cadeia produtiva da carne. ‘‘A descapitalização do pecuarista impede investimentos na recuperação de pastagens e hoje não se consegue melhores índices de produtividade ou qualidade de carne com os pastos degradados como estão. Mais difícil ainda é investir em sistemas de rastreamento como brincos eletrônicos ou sistemas computadorizados para controle do rebanho, sem apoio da iniciativa privada.’’
Alianças mercadológicas Uma boa alternativa, de acordo com o pesquisador, é participar de alianças mercadológicas, formadas entre produtores, indústrias e pontos de distribuição. A própria Embrapa Gado de Corte participa de um programa há três anos que abastece o mercado local de Campo Grande com carne certificada. Com o programa, segundo Keppler, há uma melhor distribuição de lucros dentro da cadeia produtiva.
O projeto oferece carne embalada e identificada com informações da raça, sexo, idade e sistema de criação pelo qual passou o animal (criação a pasto, a pasto com suplementação, em confinamento, semi-confinamento) a exemplo de outros projetos já desenvolvidos no País como o do Fundepec, de São Paulo; o Red Beef Conection, de Minas Gerais; o Procarne, também do Mato Grosso do Sul, entre outros.

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