Pecuária carece de incentivos a longo prazo
A baixa oferta de bovinos de corte é um desafio que a agropecuária brasileira terá que enfrentar caso a demanda por alimentos continue crescendo. Depois de anos estagnada devido aos baixos preços pagos pela arroba, muitos pecuaristas desistiram da atividade. Os que continuaram, tiveram que abater matrizes nos últimos anos por causa da demanda cada vez mais aquecida.
Elevar o potencial produtivo é o novo desafio do setor. Porém, o modelo de pecuária extensiva, ainda predominante em muitas regiões do Brasil, não é mais viável. Além de nocivo ao meio ambiente, esse método não é mais economicamente vantajoso. Alexandre Turquino, produtor de animais de cria e presidente da Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC), avalia que a pecuária sozinha não consegue mais se sustentar.
Para elevar a produção com qualidade, Turquino aponta que o produtor deve diversificar. Em sua propriedade, localizada na região de Londrina, o pecuarista e agricultor adotou o sistema de integração lavoura e pecuária. Essa parceria permitiu que ele aumentasse a qualidade das pastagens e também elevasse os índices de produção na agricultura com os dejetos dos animais e também por meio da rotação de culturas.
Com a integração, Turquino começou a produzir mais em uma mesma área. Hoje, o produtor possui um índice de 5 unidades animal por hectare (u.a./ha), contra uma média nacional de 1,5 u.a./ha. Ao todo, a fazenda possui em torno de 360 hectares. Desse total, 216 hectares são destinados para pastagens. Para realizar o sistema de integração, Turquino subdividiu a área em nove talhões.
Para realizar a primeira cobertura de solo em um determinado lote, o produtor inicia o processo plantando soja ou milho. A maior parte da colheita é destinada para a alimentação do gado e o restante é entregue na cooperativa Cocamar. Depois da colheita, Turquino planta uma cobertura de pastagem (cobertura resiliente) e depois um capim definitivo. Nesta área de solo enriquecido, o pasto consegue durar com qualidade por muito tempo. "Mesmo em períodos de seca, há alimentação suficiente para o gado", comemora o produtor.
Ele completa que só com essa metodologia realizada em cada piquete é possível viabilizar a produção de carnes. Além da integração, Turquino afirma que para aumentar a produção de carne são necessários uma boa genética, adoção do cruzamento industrial e, além disso, o desmame só pode ser realizado quando o animal tiver acima de 250 quilos. "A partir daí você consegue um produto diferenciado", completa o produtor.
Mercado
Para viabilizar o aumento da produção de carnes, o presidente da ANPBC destaca que o governo deveria viabilizar financiamentos a longo prazo porque produzir um animal para abate leva tempo. "Para começar na atividade, um produtor precisa de um financiamento com pagamento em, no mínimo, dez anos", observa.
O pecuarista afirma ainda que a alta burocracia na obtenção de financiamentos impede o desenvolvimento da atividade. "Os planos de governo ainda são muito burocráticos", lamenta. Além disso, ele reclama que o limite de crédito por CPF ainda é muito baixo. Outra questão levantada por ele é com relação à insegurança jurídica, como a regularização de terras e aspectos ambientais, por exemplo.
"Me preocupo com o futuro da pecuária, pois não sabemos qual será a quantidade de matrizes que teremos", analisa o presidente da ANPBC. Além de investimentos em cria de gado, Turquino sugere que deveria haver mais financiamentos para a compra de insumos, "mas tudo com pagamento em longo prazo", enfatiza. (R.M.)





