Pecuária bem feita só protege
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sexta-feira, 04 de junho de 1999
Cláudia Barberato 
A adoção de sistemas de recuperação de pastagens é um meio de devolver ao solo o que foi retirado durante anos e garantir produtividade tanto agrícola quanto pecuária. Um pasto degradado tem um reflexo ambiental grave a longo prazo, porque é preciso do solo para sobreviver.
A pecuária é um sistema, quando feito com competência, que permite agredir menos o ambiente e garantir a sustentabilidade. Quando mal feita, com pastagens mal manejadas e mantidas abaixo do nível de fertilidade, provoca degradação de áreas, além de queda na produção. O alerta é do chefe da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande (MS), Araê Boock, pesquisador da área de Ecologia e Manejo de Pastagem.
A solução seriam as pastagens cultivadas, usando espécies corretas nos lugares adequados. Muitas das áreas de pastagens cultivadas hoje estão em locais inadequados, onde têm bom desenvolvimento inicial mas, depois de alguns anos, não se prestam mais a alimentar os animais; esgotam nutrientes do solo, e não têm condições de permanecer produzindo.
Em casos como esse, o produtor deixa de adubar por condições econômicas e, sem ajuda, a vegetação não tem condições de voltar a produzir. Há a introdução de novas espécies, de menor exigência nutricional, que provocam queda na lotação de animais; ou deixa-se degradar, o que é mais comum por questões econômicas.
Problema antigoA degradação de pastagens, segundo Boock, acontece em regiões onde se tinha fertilidade elevada da terra. Áreas foram desmatadas e derrubadas, onde primeiro entrou a cafeicultura. Depois foi introduzido o colonião e, a seguir, a braquiária, caso do Paraná e Sul do Mato Grosso do Sul. Hoje, nestas áreas, houve o processo de lixiviação e erosão de muitos pastos e como os custos para recuperação são muito elevados, fica-se à mercê da degradação.
De acordo com o pesquisador, somente no Brasil Central são mais de 40 milhões de hectares de pastagens cultivadas e a estimativa é de que em torno de 60% a 70% têm algum grau de degradação. Pastos mais degradados estão em regiões do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, que sofrem o processo há mais tempo. Mas em outras localidades, se não houver recuperação, a degradação é somente uma questão de tempo.
Agricultura ajudaUma alternativa, aponta Boock, é recuperar áreas de pastagens degradadas com agricultura, usando culturais anuais, o que tem sido feito no Noroeste do Paraná, por exemplo. A recuperação pode ser feita em 20% da área a cada ano e, ao final de cinco ou seis anos, estaria tudo recuperado.
A recuperação das áreas degradadas, alerta o pesquisador, é sempre mais barata (num sentido amplo) e menos danosa do que a abertura de novas áreas para pastagens. Ao utilizar gramíneas mais produtivas ou melhorar a fertilidade do solo nas pastagens implantadas, o pecuarista não precisará destruir áreas nativas que, por isso, são preservadas.
Além disso, deverá ter maior racionalidade, melhorando a qualidade genética do rebanho por meio de cruzamentos ou inseminação artificial e suplementando os animais na seca. Se as pastagens conferem proteção mais efetiva ao solo do que as culturas anuais, e a atual alternativa mais viável para a recuperação de pastagens é por meio da integração com a agricultura, então a proteção do solo contra a erosão deve atender a ambas, escreveram os pesquisadores Wilson Koller e Ronaldo de Oliveira, também da Embrapa Gado de Corte.
De acordo com artigo preprarado pelos pesquisadores, as gramíneas nativas, como a grama forquilha ou capim mato grosso e o capim jaraguá, estão dando lugar à outras, com melhores características agrostológicas e de produtividade. As braquiárias reinam absolutas nas últimas décadas, ocupando 60 milhões de hectares no País.
Das áreas de pastagens brasileiras, metade localiza-se no Cerrado. Cerca de 80% delas constituem-se de alguma espécie de braquiária. Mas, a maior produtividade dos capins introduzidos, que tanto agrada aos pecuaristas, traz uma lógica muitas vezes não levada em conta. Segundo Koller e Oliveira, essas plantas são muito mais eficientes do que aquelas que aqui já existiam na tarefa de retirar nutrientes do solo, retirando mais do que o solo tem condições de recolocar à disposição.
A capacidade de suporte da pastagem, geralmente, é mantida no limite máximo tolerável ou além dele. Como resultado, o período útil da pastagem é abreviado pelo uso intensivo, levando à sua rápida degradação, especialmente, nos solos mais pobres do Cerrado.
O deslocamento para novas fronteiras agrícolas pode parecer, na concepção do agropecuarista, que resolve o problema e, de momento, realmente isso acontece. Mas essas fronteiras estão se esgotando rapidamente e o lucro obtido nos primeiros anos de exploração das novas terras, caso não parcialmente reaplicado na manutenção da sua capacidade produtiva, logo reconduz o proprietário ao dilema em que se encontrava na propriedade anterior, alertam os pesquisadores.
Adubação indiretaOutra alternativa para recuperar os pastos, orienta o chefe da Embrapa Gado de Corte, é introduzir leguminosas consorciadas com gramíneas, para garantir a sustentabilidade e pastos de melhor qualidade, aumentando capacidade de suporte e até substituindo adubação nitrogenada.
O procedimento já está sendo feito em algumas áreas do Brasil Central e no Paraná, na região onde os solos são mais pobres. Já foi testado o arachis, um tipo de amendoim, e os estilozantes, que melhoram o estado nutricional da pastagem e permitem uma sustentabilidade maior do sistema, além de provocarem menor dano ao sistema ambiental.
A leguminosa, quando bem plantada em conjunto com a gramínea, incorpora ao ano de 100 a 200 quilos de nitrogênio, o que é uma considerada uma boa adubação; prática que normalmente não é feita em áreas de pastagem, sobretudo onde estão os solos mais pobres e terras de menor valor.
As pastagens nativas, segundo o pesquisador, sofrem menos porque o uso é menos extensivo. A ocupação de animais é menor e o impacto também. Em compensação, a produção de carne também é mais baixa. Em regiões do Norte, por exemplo, ou do Pantanal (por suas pecualiaridades) a ocupação é de três a sete hectares por animal. O indicado, em pastos cultivados, seria ocupação de um hectare para seis animais e, nos nativos, de um hectare para dois aniais.
O uso da pastagem, neste caso, também é associado aos produtores de baixo nível tecnológico; há maior limitação de terrenos com pedras, fertilidade baixa, deficiência de drenagem (exemplo do Pantanal), entre outros.


