Patamares de arroz viram tanques
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de novembro de 1996
Silvana Leão 
Criar peixes é uma atividade que pode proporcionar um bom retorno ao produtor, mas exige grande investimento para a construção dos tanques e manutenção da atividade até a venda do primeiro lote, que acontece, em média, um ano depois da compra dos alevinos. Por isso, a piscicultura se torna mais viável em locais que já possuam estrutura favorável à sua instalação, como as propriedades que até anos atrás eram produtoras de arroz irrigado por gravidade.
A topografia característica e os patamares ainda existentes em muitas destas propriedades diminuem o trabalho de remoção de terra para a confecção dos criatórios, reduzindo os custos iniciais para o piscicultor em cerca de 30%. Só em Rolândia, no Norte do Estado, estima-se que exista uma área de aproximadamente 600 hectares com estas condições. Uma parte foi transformada em pastagem, mas de qualquer forma são as áreas que têm boa potencialidade para a piscicultura, explica Gilberto São João, agrônomo do escritório da Emater em Rolândia.
Aproveitando uma destas áreas, o agrônomo e produtor Ricardo Neukirchner, de Rolândia, construiu 23 tanques para engorda de pacu, carpa e tilápia. Ele explica que gastou em torno de R$ 5 mil por hectare, para montar a estrutura de criação, que ocupa 6,5 dos 375 hectares da fazenda. Além dos terraços, foi aproveitada a tubulação antes usada na irrigação.
Em outra situação, o piscicultor, que também é presidente da Associação Rolandense de Aquicultores (Araqui), acredita que o investimento seria no mínimo de R$ 9 mil/ha. Mas não dá para dar valores exatos, pois depende muito da topografia do local, diz.
Diversificação Ao contrário de criadores que costumam falar da atividade apenas como algo altamente lucrativo, Ricardo Neukirchner condiciona a sua viabilidade à diversificação da propriedade. O custo de produção também é elevado; por isso o produtor deve ter outras atividades que proporcionem renda até que obtenha os primeiros lucros. No seu caso, a piscicultura divide espaço com a soja, milho, cana, mandioca, gado de corte e culturas de inverno.
Segundo o presidente da Araqui, depois de instalada a atividade os gastos são basicamente com a alimentação dos peixes (ração). E este custo pode ser ainda maior quando não é feito um bom acompanhamento técnico, que determine exatamente a quantidade de ração diária que os peixes necessitam. No caso dos Neukirchner, são gastos 500 kg de ração por dia, o equivale a aproximadamente R$ 200,00.
Este volume é definido pela checagem constante (a cada 20 dias) do peso médio dos peixes, através de procedimento denominado biometria. Depois de conferido o peso, por amostragem, da população do tanque, calcula-se a quantidade de alimento diário, que deve ser de 3 a 5% o peso do peixe. A ração deve ser fornecida três ou quatro vezes ao dia, dependendo da temperatura. Quanto mais baixa, menor a quantidade necessária de comida. Daí a importância de medir diariamente a temperatura da água, recomenda o agrônomo.
Controle da quantidade De acordo com Ricardo, que mantém a boa produtividade de 10 toneladas por hectare/ano, quando se coloca mais ração do que o necessário nos tanques, a qualidade da água fica comprometida, além dos gastos serem maiores. Para controlar melhor a quantidade de peixes por reservatório, ele explica que o ideal é ter na propriedade dois tipos de tanques: os específicos para abrigar os alevinos até a fase juvenil (até 50 gramas) e os destinados à engorda, que devem ser em maior quantidade.
A vantagem deste sistema é que, ao transferir os peixes para os tanques de engorda, eles são contados e, a partir daí, diminuem os riscos de alteração deste número. Já nos reservatórios de alevinos é comum haver diminuição da população, devido ao inconstante índice de mortes.
Apesar de todo este esforço, Neukirchner lembra que o piscicultor está sujeito, muitas vezes, a um problema de difícil controle: o roubo de peixes por pessoas que invadem a propriedade em busca da pesca fácil. Ele sabe bem o que é isso. Tanto que instalou, recentemente, um sistema de iluminação dos tanques, para tentar espantar os visitantes que costumam aparecer à noite.
Planejamento Como em todo tipo de atividade, o bom planejamento é a primeira condição para o sucesso do negócio. No caso da criação de peixe, este fator torna-se ainda mais importante, pois depois de construído o tanque fica muito difícil, e custoso, reformá-lo. Os defeitos de construção aparecem, sobretudo, na hora da despesca, quando os peixes atingem peso ideal para serem entregues aos pesque-pague (no caso de Ricardo, toda a produção tem esta finalidade).
Segundo a veterinária da Emater em Rolândia, Gaíza de Paula Iácono, o criatório deve ter uma parte mais funda, para facilitar o agrupamento dos peixes na despesca. Além disso, o fundo do tanque deve ser bem uniforme, para evitar a formação de poças, onde alguns peixes ficam alojados e acabam morrendo. A veterinária também explica que um tanque mal feito acarreta alto nível de estresse para os peixes, no momento de serem retirados, o que coloca em risco a sua sobrevivência nos tanques dos pesque-pague.


