Parte da safra pode virar ração
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sexta-feira, 18 de setembro de 1998
Vânia Casado 
As chuvas frustraram as expectativas dos produtores de trigo que esperavam colher uma safra de excelente qualidade este ano. Até o mês de agosto, as lavouras estavam viçosas e tudo indicava que os níveis de produtividade seriam recordes, superando 2.100 quilos por hectare. Mas esse cenário mudou e as cooperativas do Norte do Paraná já falam em perdas de até 50% em algumas lavouras. O fato é que a produção de trigo está perdendo qualidade em função das chuvas e o temor dos produtores é que um grande volume de trigo seja classificado como triguilho, destinado à produção de ração, o que pode influenciar nas cotações de milho.
A safra de trigo do Paraná deverá render 1,76 milhão de toneladas - uma elevação de 7,5% sobre a safra passada, apesar da redução, inferiro a 1%, da área plantada. No início do plantio de trigo chegou-se a prever uma queda de até 12% na área do cereal. Os produtores estavam desestimulados com a cultura, porque não conseguiam comercializar a produção acima do preço mínimo, diante da dificuldade de competir com o trigo argentino. Com a falta de alternativa de plantio viável economicamente nesse período, e com a liberação de recursos para o custeio em tempo hábil, o produtor acabou plantando 893.000 hectares, que corresponderam a uma redução inferior a 1% em relação ao plantio anterior.
Oeste e SudoestePara o técnico da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento, Otmar Hubner, os problemas com perda de qualidade afetam principalmente as lavouras do Oeste e do Sudoeste, responsáveis por 40% da produção de trigo do Estado. Na região Norte, que produz 31% da safra estadual, as lavouras não foram muito prejudicadas, porque a colheita estava adiantada. Cerca de 60% da safra regional já estavam colhidos antes da intensificação das chuvas, o que rendeu um trigo de excelente qualidade superior até ao produto argentino, avaliou.
Já no Oeste, apenas 15% da safra estão colhidos e o produtor utiliza os intervalos de estiagem para entrar com as máquinas nas lavouras, para evitar o agravamento das perdas. A região Sul, que contribui com 11% da produção estadual, não foi afetada pelas chuvas porque a maior parte das lavouras ainda está em fase de frutificação.
DoençasMas, o maior problema das chuvas, disse Hubner, é que elas aceleram as doenças fúngicas nas lavouras e o produtor não tem como controlar. Não dá para o produtor pulverizar o plantio, se está chovendo, justificou. O técnico disse que o custo de produção dessa safra será maior para o produtor. Isso porque se normalmente ele faz uma aplicação e meia de fungicida a cada ciclo, mas neste ano teve que fazer três aplicações em média.
A preocupação dos produtores é que o trigo nacional, já pouco valorizado frente às facilidades de importação da Argentina, perderá em produtividade e qualidade. Até a semana passada, as expectativas de comercialização estavam mais animadoras, com a decisão do Governo de implantar o PEP (Prêmio de Escoamento do Produto) como mecanismo de comercialização. A comercialização do trigo paranaense estava paralisada por falta de comprador. Os moinhos preferiam comprar o produto na Argentina, onde pagam entre US$107 e US$110 a tonelada. Com a internalização o trigo chegava aqui entre R$165,00 e R$170,00 a tonelada, valor superior ao preço mínimo, fixado em R$157,00 a tonelada.
Com o leilão do PEP a comercialização de trigo começou a fluir. No primeiro pregão, realizado no último dia 10, foram vendidas 93.200 toneladas, que correspondiam a 100% do volume ofertado no Paraná (90.000 t), mais 40% da oferta do Mato Grosso do Sul (10.000 t). O leilão animou produtores e cooperativas paranaenses, em função da disputa que chegou a ocorrer entre os moinhos. Com isso, o prêmio fixado pelo Governo, de R$24,00 a tonelada, foi rebaixado para R$21,20 a tonelada.


